quarta-feira, julho 01, 2009

Nota "Un conte de Noël"

Em "Un conte de Noël", Arnaud Desplechin faz também a sua própria versão de um filme de Ingmar Bergman. A tese é confirmada a vários títulos: escolha da temática organizadora (a degeneração física, assunto eminentemente bergmaniano, tanto mais que o autor sueco permanece quase isolado na capacidade de construir um bom filme a partir de um assunto tão propenso ao sentimentalismo predador), apetência por certas cenas de género (o teatrinho e o jantar de Natal fazem lembrar "Fanny e Alexandre"), estratégias narrativas (as interacções psicológicas decisivas entre as personagens de um grupo são uma constante em Bergman; o idílio ilusório da cena final, algo falhada, de resto, é uma citação da conclusão brutal de "Lágrimas e suspiros").

Desplechin afasta-se de Bergman, contudo, em aspectos muito concretos: na profusão de tons contrastantes (que o francês consegue harmonizar num todo brilhantemente consequente), na overdose de citações (a música remete para as bandas sonoras de Bernard Herrman, Michael Nyman, e etc.), na ausência de um parti pris formal (dos efeitos de íris aos zooms rápidos, da montagem paralela à inadequação entre música e acção, nenhuma opção instaura aqui um método semanticamente estruturado), no recurso a alta e baixa cultura (tanto há citações de Nietzsche como momentos de habilidade de um DJ), na sensação de energia esfuziante. É, aliás, esta sensação de energia que faz com que o pulsar do sangue (mau ou bom, faz todo parte do património fisiológico de uma família) não seja apenas um assunto (ou uma metáfora) mas o próprio princípio de prazer que emana da encenação e contagia o espectador. "Un conte de Noël" pareceu-me um filme literalmente latejante (ao que não será alheio o extraordinário empenho de todos os actores).

Se juntar a isto o gosto de Desplechin pelas ficções salinas (que igualmente fazia o encanto de José Álvaro Morais, igualmente menosprezado por um crítica que prefere os truques de circo de Quentin Tarantino) e a belíssima história secundária protagonizada por Chiara Mastroiani (o ser capaz de inventar a humanidade de quem ama), posso afirmar, sem receio nem poder, que gostei imenso de "Un conte de Noël".

A família é uma roleta russa do sangue.

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