domingo, julho 05, 2009

No escrínio 47

Uma leitura do poema "Ode to concrete" de Iosif Brodskii (original neste post, tradução neste outro).


"É como se o espaço, aqui consciente como nunca da sua inferioridade em relação ao tempo, ripostasse com a única propriedade que o tempo não possui: a beleza."

"Somos aquilo para que olhamos (...)"

Iosif Brodskii (no livro "Marca de água", sobre a cidade de Veneza)





No seu "Dictionnaire de rhétorique", Georges Molinié explica que, muitas vezes, a metáfora surge sinalizada no texto por expressões aparentemente contraditórias com a sua função. É o caso de quando dizemos "a minha vida foi literalmente uma tragédia", mas temos a certeza de que a meia dúzia de contrariedades a que biografia nos condenou não configuram de facto um excesso trágico. É claro que há aqui ironia, difemismo, hipérbole, mas o uso da palavra "literalmente" acaba por ser o processo mais directo de informar o receptor de que "tragédia" está aqui a ser usada, também, como sendo uma metáfora.

Brodskii é um poeta muito rigoroso. E apesar deste seu texto ser uma "ode ao concreto" (podemos lê-lo como um louvor a nada mais que o material "cimento"), a verdade é que o autor do texto é o primeiro a assinalar a sua vocação metafórica. Fá-lo essencialmente quando diz que certa gente o tomava a ele mesmo, pessoa de carne e osso, como uma espécie de via (de rua cimentada). A expressão chave, aqui, é "uma espécie". Ao mesmo tempo que descarta a possibilidade da sua pessoa ser, na verdade, uma rua, o escritor insinua que, enquanto metáfora, ele já pode ser considerado "uma rua".

E Brodskii é rigoroso ao ponto de impedir o delírio interpretativo do seu leitor. Esta é uma ode ao concreto, e por isso a sua metaforização é absolutamente concreta. Quando ele afirma que os seus progenitores (aqueles que o criaram para que ele lhes sobrevivesse) citavam a cor dos seus olhos e o seu semblante (ou seja, referiam-se aos traços fisionómicos que provavam a sua autoria parental), o autor está a delimitar o campo conotativo do seu discurso. Pois ao falar de uma rua de cimento, ele refere-se, por um lado, à rua da vida que os seus pais, os arquitectos, lhe proporcionaram, e por outro lado, à sua actividade enquanto escritor de poemas, enquanto gerador ele mesmo (afinal, o que podemos nós citar que não seja texto?).

Ora, quando conseguimos entrever, numa mirada só, o fim de uma estrada, podemos afirmar (descontando a questão da velocidade da luz, que o sentido da visão não intui) que essa estrada é por nós abarcável como um mero fenómeno do espaço. No entanto, quando o fim dessa estrada não pode ser captado sem o movimento do observador, então a estrada passa a ser um fenómeno de tempo (é preciso que o observador se mova no tempo para que, alterando o ponto de vista, passe a ver o fim da estrada). A rua de cimento evolui assim da dimensão concreta para a dimensão abstracta (metaforizando-se em "rua da vida").

Para os dois assuntos concretos do texto (a biografia do escritor, o poema que ele cria - cuja beleza é aqui sinalizada por evidente ironia), há dois horizontes abstractos. O fim da vida é, claro, a morte (cuja abstracção consiste na impossibilidade de sabermos qual a data, "date", em que ela ocorrerá); o fim do poema é a sua leitura posterior por alguém (igualmente abstracto na medida da sua imprevisibilidade).

Esses horizontes são pelo poeta definidos como sendo "cegos" (é a incomunicabilidade do mundo após a morte, e é o facto de que, enquanto não existe um leitor concreto, o poema permanece invisível) e como estando fechados à geração vital: a saia da rapariga do "blind date" é demasiado comprida e está petrificada, ou seja, não há possibilidade de o autor assaltar o sexo dessa rapariga.

Esta valorização negativa (esta semelhança do destino com o cimento, com a ausência de sentido da sua origem, "um rugir penetrante") não me parece que seja definitiva ou desesperada. Pois se fizermos um pouco de especulação, podemos supor que, quando alguém lê este poema específico (é o que eu estou a fazer neste momento...), as duas temáticas do texto acabam por se unir. Pois no acto de leitura (quando o abstracto futuro do texto se torna concreto presente), o poeta consegue, através da criação de algo inanimado (o conjunto de palavras), produzir uma porção de vida (no intelecto do seu leitor). O louvor da ode não é por isso "disfórico", mas dependente das mais rigorosas consequências do discurso que ele próprio formula. Trata-se, portanto, de uma ode concreta.

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