quinta-feira, julho 30, 2009

A idade da alma

O encontro da jovem Etty Hillesum com o quiropsicólogo Julius Spier foi essencial para que ela perdesse todas as suas inibições religiosas. Aliás, os mitos que conformam a mundividência desta eterna candidata a escritora são todos de índole judaica: dos mais mesquinhos (a valorização do auto-controlo perante as diversas modalidades da tentação, a subjugação do material ao espiritual, um certo desprezo por uma sexualidade todavia bastante activa) aos mais produtivos (a crença na possibilidade de melhorar o íntimo de forma consciente, a representação da plenitude intelectual através da metáfora da planície desimpedida). Acima de tudo, Etty acreditava piamente que era preciso transformar o amor entre as pessoas na Terra para que o amor a Deus fosse possível. O seu desinteresse pelo sentimental não derivava conscientemente dos tabus imemoriais que engendraram o conceito de Pecado, mas da sua tremenda ambição para um outro conceito: o de Amor.

É essa fusão imaginada do indivíduo na unidade do Humano que, por via do preconceito bíblico da culpa, a leva a não se querer salvar pessoalmente quando todo o povo judeu estava a ser objecto de um processo de extermínio. A questão política que guiou toda a escrita e toda a acção de Etty Hillesum foi, portanto, a dificuldade de conciliação entre o individual e o colectivo.

Não concordo com a sua resposta, diga-se desde já (pois não acredito que o sacrifício do individual possa favorecer o colectivo). Mas a verdade é que a luta física que Etty fazia com Spier por motivos terapêuticos (é verdade!) sofreu uma metamorfose quando a História se atravessou no seu caminho. Mais ainda do que uma santa-psicóloga, Etty tornou-se uma santa-guerreira (a jihad é uma narrativa muito apreciada por todas as religiões). Todo o seu trabalho (desde a ginástica para fortalecer o corpo ao processo diaristicamente anotado de limpeza do espírito) se destinou a criar uma relação com a ameaça nazi que privilegiasse a antecipação (racional) sobre a ansiedade (cobarde).

Claro que a brava holandesa era objectora de consciência e afirmava que preferia sucumbir a ter de agredir o seu adversário (o que lhe valeu admoestações não totalmente infundadas). Mas a sua verdadeira (e genial) conquista não foi essa: Etty veio ao mundo para impedir qualquer transcendência ao sofrimento.

A jovem decidiu viver em plenitude, independentemente das condições exteriores que lhe eram impostas. Contra toda a expoliação, decidiu proteger a riqueza da sua alma. Tentou seguir o seu caminho interior de forma imperturbável. É uma solução cultural (Etty foi uma pessoa efectivamente mudada pela literatura). A diarista nunca abandonou, aliás, o trabalho intelectual (leu Rilke até ao fim da sua vida). Mas o mais importante é que o seu Diário acabou por funcionar como um escrínio para a normalidade (e para o Bem, que deveria passar intacto para a época seguinte). Ou melhor, o que se encontra em cada uma das páginas desse livro é a VIDA gloriosamente protegida de todas as estratégias de extinção que o Holocausto proporcionou.

Estranhamente (ou talvez não), o Diário é um livro lírico (sim, caro Adorno). Um livro onde se fala da evidência da alvorada, de flores, de música e da língua russa, um livro em que se conta uma inesperada história de amor (Spier tinha uma noiva em Londres, e Etty não pretendia uma relação sentimental; mas acabaram por funcionar como um par caminhando por entre toda a tristeza). Passo a passo, Etty intensifica tudo aquilo a que ainda vai tendo acesso numa realidade em processo de redução compulsiva. Espero que as minhas palavras não pareçam grosseiras, mas a verdade é que eu acho que o seu caso é o de um certo autismo resistente, e parece-me que Deus funcionou para si como uma patologia extrema de sobrevivência (é claro, eu não sou crente...). Mas assim como Etty foi acima de tudo uma escritora do seu processo de leitura (dos outros, da História), é a obliquidade da sua atitude existencial que melhor nos permite entender a loucura (de sentido oposto) do nazismo. Para um dragão de proporções inimagináveis, a santa-guerreira rasgou as suas entranhas morais até elas não serem mais do que pura beleza.

Claro que, depois de passar pelo campo de trabalho de Westerbork, o seu tom é mais cansado. Claro que, a partir de certa altura, a sua vontade de lá regressar se confunde com o desejo de morrer. E que, no fundo, o seu Diário acaba por funcionar como um dos mais sublimes poemas de despedida do mundo que já me foi dado ler. Mas é mesmo de sublime que estou a falar: no meio de um Apocalipse de carne e sangue, o primeiro morto que Etty viu na sua vida foi Julius Spier.

Em tempo de guerra, Etty limpou todas as armas com que sofreu.




"A idade da alma, que tem uma idade diferente daquela anotada no registo civil. Penso que, ao nascer, a alma já tem uma certa idade que nunca mais muda. Uma pessoa pode nascer com uma alma que tem doze anos, e quando uma pessoa chega aos oitenta essa alma ainda tem doze anos e não mais que isso."

(tradução de Maria Leonor Raven-Gomes)

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