sábado, julho 18, 2009

Da carochinha

1. Não sei bem o que Orson Welles terá alterado no conto de Isak Dinesen para escrever o argumento do seu filme "Uma história imortal". Seja de quem for a responsabili- dade do que a seguir defendo, a verdade é que fiquei com a ideia de que, nessa alegoria, o povo judaico é considerado um povo de tal modo desejando a vinda de um Messias, que preferiu não acreditar no cumprimento desse seu desejo (afinal, mesmo que a história do Filho de Deus fosse/seja verdadeira, quem poderia/poderá acreditar nela?). Não é por acaso que o personagem judeu do filme é um misantropo que não quer nada para si, um insecto que não conseguimos aniquilar porque está isento de desejo.


2. Em "Uma história imortal", Welles representa o papel mais relevante (o do milionário que morre depois de ter conseguido dar realidade a uma ficção). Das duas uma: ou o realizador pretende dizer que, após ter feito um filme como "Citizen Kane" (o encontro entre a total liberdade de produção e um paroxismo de uma criatividade), de certo modo morreu; ou então quer partilhar connosco a ansiedade que sentiria se pudesse fazer, de novo, um filme nas mesmas condições da sua obra-prima inaugural. O que aconteceria ao homem que conseguisse realizar o filme exacto que traz dentro da cabeça?

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