sábado, julho 04, 2009

Contradições

No livro "Marca de água", Iosif Brodskii relata o incómodo sentido por ele e por Susan Sontag quando foram convidados a visitarem a viúva de Ezra Pound em Veneza. O incómodo resultava, claro, da reputação anti-semita do poeta americano. Curiosamente, este Brodskii tão ético (que igualmente se opõe ao fascimo italiano do passado e ao comunismo do seu país natal) é o mesmo que, páginas atrás, fizera alguns comentários definitivamente homófobos...

Ao mesmo tempo, Brodskii critica a obra de Pound por esta pretender instaurar algo de novo. Segundo o autor de "Paisagem com inundação", essa vontade do novo não passa de uma operação de cosmética sobre uma arte, a poesia, que é fundamentalmente muito antiga. Interessante conservadorismo que agradaria a muitos autores portugueses... No entanto, a força da poesia de Brodskii reside, em grande parte, na novidade da estratégia com que cada um dos seus textos aborda o seu assunto (um dos exemplos mais evidentes é o ciclo de poemas sobre os centauros). Para além de que ele é um escritor obcecado por encontrar metáforas inéditas, e a verdade é que o sucesso dessa sua busca aventurosa é constante...

Não estou aqui a criticar o conservadorismo de Brodskii, mas a defender que ele é um poeta puro. Aquilo que ele articula em forma de poema é muito mais amplo e generoso do que aquilo que articula através da prosa. Na sua poesia, a provável contradição é uma forma de liberdade.

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