terça-feira, junho 02, 2009

Uma leitura de "O idiota" de F. Dostoiévski

O romance "O idiota" é uma invulgar comédia. Não porque faça rir o seu leitor (de modo algum pretende ser uma comédia de facto), mas porque investiga todas as modalidades de ironia que resultam do embate entre o absoluto (as personagens do idiota e de Rogójin) e a relativização social na qual esse absoluto tem de progredir.

Dostoiévski não descreve uma sociedade de crentes. Pelo contrário, nas suas personagens coloca todas as modalidades possíveis da relação, ou da falta dela, com a fé. No entanto, a sociedade de "O idiota" vive imersa numa espécie de inconsciente religioso (especificamente cristão), a partir do qual se formam as consciências de todos os seus indivíduos. Basta atentar no petit jeu que algumas personagens decidem fazer em casa da personagem Nastássia (cada uma deve contar a maior iniquidade que alguma vez praticou), para ficarmos cientes da importância que o mito da confissão tem para a Rússia do século XIX.

O Príncipe Lev Míchkin (o idiota) é a personificação (ou alegorização) do Bem, e Rogójin representa, claro está, o absoluto do Mal (a história começa com os dois sentados frente a frente num comboio, e termina com eles a dormirem lado a lado na divisão contígua ao quarto onde jaz o cadáver de Nastássia, a mulher a salvar). Ou sendo mais rigoroso, o idiota dá corpo à possibilidade inverosímil de um amor sem egoísmo, enquanto que o seu oposto transporta consigo a omnipresente ameaça da morte. A primeira questão que se coloca no romance é: estes personagens poderiam existir? Note-se que Rogójin (e muito particularmente o seu olhar) aparece a maior parte das vezes figurado como uma alucinação das outras personagens. E o Príncipe é constantemente equiparado a Cristo ou a D. Quixote. Quer-me, aliás, parecer que a figura do general Ivólguin, um mitómano incorrigível que afirma ter sido, em criança, íntimo de Napoleão (o que é impossível, mesmo do ponto de vista cronológico), tem a função de precisamente sinalizar a impossibilidade real de alguém poder encontrar um ser humano como o Príncipe.

A biblioteca que fez a loucura do Quixote é aqui substituída pela educação isolada (numa aldeia) que o Príncipe teve. Foi a aldeia que fez de Lev um idiota, e de Nastássia uma marginal. Se tivessem sido educados num ambiente gregário (nomeadamente, no espaço urbano), as suas desgraças originárias (a epilepsia dele e a violação sexual que ela sofreu) seriam certamente relativizadas e teriam formado seres eventualmente doridos mas muito mais equilibrados (verosímeis). No contacto com o Príncipe (com a sua transparente bondade, com a sua invariabilidade ética), todas as outras psicologias são exacerbadas até à náusea. Como se ele tivesse sido expelido directamente do inconsciente cristão sem ter passado pelos usuais processos de normalização social, e nenhum ser humano fosse capaz de aguentar isso.

O que o Príncipe e Rogójin trazem de aflitivo (de romanesco) é a sua definitividade. Os momentos mais pungentes da narrativa surgem quando Ippolit (um imaturo que finge que quer ser odiado) fica transtornado por saber que vai morrer em breve, e quando Nastássia tem por duas vezes a possibilidade de contrair um casamento sério (e das duas vezes se escapa). É a angústia do condenado no momento anterior ao cumprimento da sentença. Claro que estamos no contexto de uma sociedade pré-divórcio, na qual o matrimónio tem todas as características de uma condenação definitiva. Mas é precisamente o medo da condenação à felicidade (do casamento com o Príncipe) que faz com que Nastássia enlouqueça. Como se, para alguém de tal modo abismado no seu próprio sofrimento e proscrição, a alegria de finalmente ser respeitado fosse de tal modo desmesurada que não pudesse ser aceite.

Ora, entre a sentença e o seu cumprimento, há todo um romance. Dostoiévski escreve como se a folha de papel onde a sua caneta evolui equivalesse à brancura do condenado à morte. No entanto, ao contrário do que ele defende (uma primazia da convulsão do conteúdo sobre os processos de o comunicar), Dostoiévski trabalha, sim, as formas. Seja através de uma técnica a que poderíamos chamar de "narração-rumor" (o livro é quase um tratado sobre os procedimentos oitocentistas de alcovitar um matrimónio), seja por recurso a uma desomnisciência selectiva (reduzindo a acção ao "pelos vistos" que a tradução de Nina e Filipe Rocha tantas vezes fornece), "O idiota" é construído como um romance no qual a Alegoria se apresenta de tal modo visceral que não podemos olhar para ela a não ser do ponto de vista do nosso Realismo incompleto e ineficaz. O romance dilui-se na mesma obscuridade em que se encontra, no final, o cadáver de Nastássia: a mulher que, incapaz de aceitar a sentença do amor, correu para os braços da sentença de morte.

2 comentários:

José Paulo Coelho Faradji Chadan disse...

Belissimo comentario!!!

pedroludgero disse...

Obrigado pelas suas palavras.