quinta-feira, junho 11, 2009

Retalhos da vida de um jovem 5

O padre Concha (o nome está pixelizado para evitar o reconhecimento da sua verdadeira identidade) foi o segundo professor de música que tive no Colégio Internato dos Carvalhos. Era um homem virtuoso, especialmente no manejo da baqueta nas cabeças dos alunos que se portavam mal. Segundo Ele.

O padre Concha foi o primeiro mentor do único Grupo de Jovens (os bandalhos cristãos são sempre jovens) no qual participei (o segundo foi o padre Argilas - nome igualmente pixelizado -, que tinha os pés tão grandes que poderia ser um santo a contrario, que escrevera um livro que tinha "30 temas, dava para tudo" - sic - e cuja coroa de glória era o facto de ter sido o primeiro docente da Faculdade de Psicologia do Porto a ter reprovado nas provas para o doutoramento).

Ah, os Grupos de Jovens... Nos Grupos de Jovens, os rapazes ou são amaricados (o que não estimula nada um verdadeiro maricas) ou já trazem, marcado no rosto, o destino de futuros autarcas do PPD/PSD ou do CDS/PP, as raparigas têm ar de que nunca foram de facto comidas, há sempre alguma que frequentou, sem sucesso, o Conservatório, por vezes uma outra com ar de halterofilista masculino, há sempre quem saiba tocar guitarra (cantar torna a alma mais pura, e a guitarra é absolutamente insuspeita no que toca a evocações do corpo), há sempre um padre insuportável que se esforça imenso por parecer porreiro (aprecia os Mão Morta e o Quentin Tarantino) e discutem-se muitos temas. Sempre os mesmos temas: o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, a eutanásia das discussões sobre o aborto, a homossexualidade da eutanásia, a interrupção voluntária da participação num Grupo de Jovens até às dez semanas (sob pena de, passado esse prazo, o jovem se ter tornado um aborto), etc. Essa gente só não é hippy porque se lava muito, porque prefere drunfar-se com hóstias, e além disso tem toda uma imensa Guerra Santa no seu passado genético.

No entanto, o Grupo de Jovens em que eu participei era apenas um conjunto de rapazes hormonalmente desequilibrados que tinham de aturar o padre Concha. O assunto favorito do padre Concha era a masturbação. Conhecedor das tecnologias de ponta ao nível da publicidade, o pastor arrebanhava-nos com os magníficos gráficos que fazia no quadro negro (desenhos que, perdoe-me nosso senhor, eram menos inocentes que os de Salvador Dali), infinitas espirais de giz, descrevendo o abismo de egoísmo que o onanismo fazia no psiquismo do punheteiro (ufa, acabou a rima). O que o padre Concha queria era vender Skip, com bata em vez de batina e trocando as suas baquetas por uma daquelas canetas enormes que contam com o seu próprio tamanho para conduzir as ovelhas por um quadro negro constelado de gráficos de grande validade científica. Mas como o sexo é o oposto do pó, e a situação daqueles jovens era preta, o padre Concha teve de resignar-se a lavar mais branco com as palavras do Sr., validadas por mais de sessenta e nove marcas de preservativos.

Mas o estúpido era eu. Embora já me divertisse a riscar santinhos com o rosto de Jesus, era um menino tão bem comportado que fazia tudo para agradar aos adultos (e até cantava em vários coros). Assim sendo, resolvi contar ao Padre Concha, durante uma confissão, que praticava o vil pecado da masturbação. Alarmado, o velho manteve-me ajoelhado durante uma boa meia hora, dissertando sobre os malefícios daquele tabaco. Quando saí do confessionário, os meus colegas, que sempre haviam pensado que eu seria canonizado ainda em vida, olharam para mim com um misto de horror e admiração (eles, que faziam o serviço em cinco minutos).

Mais tarde, fui falar com o padre Concha no seu gabinete. E ele lá continuou a sua prática, contando thrillers sobre aqueles maridos que, fechados em si mesmos como numa concha, preferiam masturbar-se a dormir com as esposas a seu lado na cama. Claro que o padre nunca pôs a hipótese das esposas serem camafeus. No entanto, este seu profundo entendimento da vida conjugal e do funcionamento do cérebro humano levaram-me a supor que ele nem sequer seria aceite para participar num estágio da Universidade Júnior no departamento de Psicologia.

Lá me perguntou se eu comprava revistas, se fantasiava com coleguinhas e coisas quejandas. Ainda bem que eu não lhe disse qual o teor da minha imaginação erótica, ou nem sei o que a curiosidade do homem me teria feito. Enfim, mais inquérito menos homilia, a coisa lá caiu no esquecimento.

O que eu não entendo é qual a razão que me levou a um acto tão beato, quando eu tinha a certeza absoluta de que, nem que o padre Concha me tivesse tentado vender o mais ardente dos Infernos, eu nunca iria parar de me masturbar. O que mais há-de fazer um rapaz de doze anos, quando começa a ouvir a música das feras, mas ainda não lhes pode passar a mão pelo pêlo?

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