quarta-feira, junho 17, 2009

Partilha 51

charivari


veja, caro e-leitor

se este fosse um poema de tema político
de imediato eu construiria uma auto-estrada
que ligasse o primeiro ao último verso

mas aí você criticaria
o meu modelo de desenvolvimento
e eu não gosto de ser cinzento
como as united colours of betão

não

eu 'stou aqui para falar da nostalgia
que é ela mesma uma maneira de falar
mas à distância
uma espécie de petição de princípio
das andorinhas online
no fim de cada verão

eu 'stou aqui para anunciar
uma nuvem melancólica
o lento minar da paciência
atrás do camião do cachorreo
esperando encontrar por fim a hora
num relógio de sol a sol

para anunciar a alegria
o je ne sais pourquoi imarcescível
antologia de armas do futuro
o martinete de ouro que floresce
só quando há sanguechuva

venho falar-vos do desejo
mas depois
dizem-me as musas que há uma ameaça de bomba
e o poema tem de ser evacuado


Nota 1. Este é o primeiro poema de um livro cujo título será "o trabalho do milionário" (juro que não me inspirei no Cristiano Ronaldo). Tentarei, pela primeira vez, partilhar aqui todos os textos que, em princípio, completarão a recolha.

Nota 2. O cachorreo é um sistema salarial utilizado na exploração mineira nos Andes, que prevê que o operário trabalhe de graça 30 dias por mês, tendo direito a, no 31º dia, trazer consigo uma quantidade de pedra da mina, onde pode estar uma fortuna em ouro, ou, o que é mais frequente, absolutamente nada de valioso.

Sem comentários: