quinta-feira, junho 11, 2009

O Jornal do Cabo 2

Disseram-me que eu fiz uma grande figura de urso aquando da publicação do primeiro número deste Jornal. Por isso mesmo, resolvi prosseguir essa aventura polar.

Nos últimos dias, o acaso tem-me posto em contacto com uma infinidade de pedintes requerendo uma esmola da minha bolsa apertada. Como sempre, não sei de todo o que hei-de fazer e acabo por tentar livrar-me da situação o mais depressa possível. Mas são tantas as questões éticas que o problema levanta... Do alto da minha ignorância, partilho aqui algumas:


1. Qual o sentido ético profundo da atitude daquela pessoa que nada em dinheiro mas diz: "eu dou uma esmola para ficar de bem com a minha consciência"? Qual é a cotação actual da consciência? O que pesa mais na consciência: a cidadania esclarecida ou o atavismo religioso?

2. Quão diferente era o problema da mendicidade no tempo em que a caridade foi instituída como virtude? O que será mais determinante na produção contemporânea de um mendigo: os caprichos da economia ou a implacabilidade da psicologia?

3. Como se pode, de facto, ajudar um mendigo? Se, em vez de dar o peixe se deve ensinar a pescar, até que ponto é que a esmola não se confunde com um rendimento mínimo paralisante de inspiração privada?

4. Conhecendo a sociedade como todos conhecemos, poderemos ser paternalistas ao ponto de obrigarmos um marginal a reentrar na dita sociedade? Por outro lado, poderemos permitir que alguns membros da nossa espécie se mantenham excluídos do conforto que nós, a maioria ocidental, para nós mesmos conquistámos? Como sabemos até que ponto uma decisão de auto-exclusão é, de facto, uma decisão?

5. Como se pode ser fanaticamente católico e ao mesmo tempo desprezar uma economia fundada numa certa generosidade ingénua? Dito por outras palavras, como se pode ser Bagão Félix?

6. Estarão os mendigos todos conluiados em cínicas sociedades de esquemas cujo sucesso depende do sentimento de culpa dos endinheirados? Mas se o seu modo de ganhar a vida é inútil, quantas profissões supostamente respeitáveis também não o serão? Deverei dar esmola ao BPP? Quem decide o que é um bom modo de ganhar a vida? O que estamos todos a fazer no planeta senão sobreviver?

7. Estaremos a evitar o contacto directo com a urgência do real, se proclamarmos que a caridade é completamente inútil, o tipo de sociedade é que tem de, um dia, mudar?

8. Por que razão não há notícias sobre este assunto, reportagens, investigações, estudos académicos? E se os há, por que não lhes temos acesso fácil?

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