quarta-feira, junho 24, 2009

O INACTUAL 35

"Shijie" - Jia Zhang Ke (2004)


"Shijie" ("O mundo", em português) quase poderia ser um musical. Pelo tom, pela inocência das personagens, pelo trabalho cromático, pela musicalidade do conjunto. Gene Kelly e Leslie Caron dançam em Paris como o casal protagonista deste filme representa em frente de uma falsa Torre Eiffel. No entanto, é tudo menos um filme (de) provinciano.

O argumento de "O mundo" gira em torno de pequenas histórias (namoros, aproximações sexuais, infidelidades, zangas familiares, festas, ambições, procura de emprego, etc.) articuladas por meio da descontinuidade, da repetição, da elipse, da pontual falta de luz, das interrupções de tom, tudo organizado em torno de uma discreta estética do plano-sequência. O que essencialmente distingue o filme é que todas estas banalidades decorrem num Parque Temático de Pequim que lhes fornece, como cenários, imitações dos lugares mais famosos do mundo ao nível turístico (do Taj Mahal às Pirâmides do Egipto).

Contudo, para as personagens o estrangeiro acaba por revelar-se menos um apelo à evasão do que a geografia de todos os mitos (de todas as ideias que estão intelectualmente associadas a esses cenários). Os passeios de Tao no monocarril do Parque levam-na de lugar comum em lugar comum a grande velocidade (é uma verdadeira máquina do tempo). E é esta agilidade de um imaginário espiritual mundialmente partilhado que vem dar espessura à ficção descosida, aparentemente banal, sem grandeza.

Pois os personagens pensam que não representam no filme do mundo, pensam que vivem as suas pequenas narrativas sem serem contaminados pelos mitos civilizacionais. No entanto, não é isso que acontece. Não só ao nível das grandes linhas que afinal organizam o argumento das suas vidas (Tao exige um amor absoluto), mas sobretudo em termos da intensidade emocional com que as situações-chaves são vividas. As cenas passadas nos cenários-clichés não são meramente irónicas, mas sobretudo (e simultaneamente) exaltantes. Por exemplo, quando Tao lê uma mensagem sob um véu claro, à chuva, na falsa Praça de São Marcos, por um efeito de nostalgia cinéfila (que equivale a um regresso inconsciente aos fundamentos psíquicos) os espectadores sentem duplicada a comoção que a cena provoca. É como se um filme sempre anterior (o filme do mundo) viesse ao mesmo tempo revelar e desconstruir a profundidade cultural que existe por baixo de qualquer acto, por mais banal que seja.

Jia Zhang Ke faz não só um dos primeiros filmes relevantes sobre o conceito de Aldeia Global (relevância que é especificamente cinematográfica, e não literária), como talha um subtil manifesto político, ao confrontar os dirigentes da ditadura chinesa com a ideia de que não há propaganda nacional que seja capaz de vencer aquilo que está para lá das fronteiras (literais e metafóricas). O espírito resiste porque guarda em si mesmo o papelão da verdade corpórea.



(Para os manifestantes iranianos)

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