domingo, junho 07, 2009

O INACTUAL 34

"Fata morgana" - Werner Herzog (1971)


A miragem conhecida como fata morgana tanto pode surgir de madrugada como ao pôr-do-sol. Werner Herzog construiu este filme de modo a que as suas imagens-miragens não nos permitam dizer com certeza se elas representam um início mítico do mundo (como sugerem os textos em off, mas também a presença quase exclusiva de crianças, o primitivismo das construções arquitectónicas e o vazio do deserto) ou o seu mítico fim (a omnipresença de destroços, os edifícios abandonados, os cadáveres de animais e, claro, o polissémico vazio do deserto).

No fundo, o Homem impõe um sentido à paisagem que ela não tem. Os textos acabam assim por ser as miragens destas imagens (daí o seu teor feérico). Podemos mesmo supor que, na relação entre imagem e texto, este aparece invertido e alongado verticalmente como os palácios dos contos de fadas (que é a deformação óptica específica que se atribui à fata morgana). Se Herzog assume o papel de cineasta extraterrestre, é precisamente para poder filmar de modo ambíguo. Se não se pode abolir o sentido, pode-se pelo menos torná-lo tão transparente & obscuro quanto a própria paisagem.

"Fata morgana" resulta de uma estranha pulsão documental, a partir da qual se filma o planeta Terra como o mais estranho dos lugares (falo de pulsão documental porque a féerie é toda conseguida sem recurso a outros efeitos especiais que não sejam os do próprio real). Mas o seu único sentido que talvez não seja uma miragem é a constatação de que o Homem é aquele ser que se define pela consciência que tem da sua própria decadência.

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