quarta-feira, junho 17, 2009

O ACTUAL 25

"El cant dels ocells" - Albert Serra


Neste belo filme de Albert Serra, os traços mais salientes da representação das figuras lendárias dos três reis magos são a velhice e a gordura dos seus corpos. O que aí se acusa é, não só a escravatura do físico humano (em contraste com as figuras leves e juvenis de Maria, José e do anjo algo pasoliniano), mas acima de tudo a antiguidade e o peso excessivos da fé. Não me lembro de alguma vez ter visto um filme que expusesse assim, de forma tão directa, a responsabilidade cansada daqueles que carregam um mito imemorial (imagine-se Romeu e Julieta velhos e obesos, tentando soletrar a custo o texto shakespeareano).

Todas as conversas e todas as acções (basicamente inacções ou desígnios banais) são encenadas de modo a fazerem o espectador quase suportar ele mesmo a dificuldade dos movimentos mais simples. E como a paisagem assume aqui um papel tão relevante quanto as personagens (que são figures in a landscape, como nos filmes de John Ford ou Theo Angelopoulos), tudo parece indicar que este é um cinema em busca de uma épica dos gestos primevos.

Em paralelo com um trabalho sonoro de extremo pudor (as conversas são sempre captadas como se estivessem a ser ouvidas de esguelha), o filme de Serra é também um estudo sobre a dificuldade de representação da figura de Cristo. A ovelha que Maria e José embalam não é uma metáfora do seu Filho (o Agnus Dei), mas um sintoma da infilmabilidade do divino. Há um lentíssimo processo de aproximação ao corpo do Messias recém-nascido (a dilação do Tempo é o elemento motor de toda a montagem), corpo esse que só é revelado com a chegada dos reis magos, com a chegada dos humanos (ou seja, do realizador). Pois só nós, vagarosos monarcas de nada mais que a travessia do deserto, precisámos que o divino tivesse assumido uma forma terrena para dar sentido ao nosso périplo convivial.


Nota. O filme já não está propriamente em exibição, mas ainda o posso incluir nesta rubrica de cinema contemporâneo.

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