domingo, junho 14, 2009

No escrínio 46

Um poema de Adília Lopes:

"O problema da definição
do adjectivo
trabalha muito na cabeça
de Maria Andrade
suponhamos uma caixa
cheia de bolas
de várias cores
dizemos dá-me a bola verde
e dizemos que verde
é um adjectivo
e bola um substantivo
podemos dizer
dá-me a verde
mas em a
está a e bola
mas suponhamos uma caixa
cheia de sólidos
da mesma cor verde
dizemos dá-me o cubo
e não é preciso dizer verde
isto é
o cubo verde
e não dizemos
dá-me o verde cubo
no entanto verde está aqui
como bola estava
no exemplo anterior
e quando dizemos
dá-me o cubo
em o
está só o
não está o e verde
para Maria Andrade
era quase claro que o estatuto
do adjectivo
era o do substantivo
isto é
não há bolas sem ser verdes
ou vermelhas
como não há verdes
sem ser cubos
ou bolas
vinte e três anos depois
do exame da 4ª classe
Maria Andrade encontrou
a Dona Henriqueta
a professora
de instrução primária
não sei o seu nome
mas sei que não sabia
o que era um adjectivo
tinha dito a professora
de facto Maria Andrade
continua sem saber dizer
o que é um adjectivo"


À primeira vista, este texto de Adília Lopes, inserido na recolha intitulada "A continuação do fim do mundo" (1995), funciona apenas como manifestação da irreverência do poeta perante a normatividade conceptual da linguagem. Desde Wittgenstein que sabemos que a lógica da linguagem é a lógica da batata (para usar uma expressão da própria Adília). E, portanto, a actividade do escritor, apesar de ter de se desenrolar no contexto de uma linguagem, de certo modo desenvolve-se em oposição, em desafio dessa mesma linguagem. Não sei se aqui se pode entrever um desejo de cratilismo (de uma língua racional, isenta de arbitrariedade), mas há pelo menos a acusação de que a legislação gramatical acaba por constituir um assunto deveras bizantino, que nem sempre dá resposta às inquietações de quem escreve. O poema funciona, portanto, como uma paródia à teoria e como uma interrupção do saber instituído.

No entanto, eu penso que Adília vai mais longe (ou mais perto). Desde logo, surge aqui a constatação de que, por muito que um indivíduo cresça (e amadureça), há no seu intelecto zonas de ignorância que ele nunca conseguirá superar. Há coisas que não conseguimos aprender. Note-se que a argumentação de Maria Andrade no que toca à distinção entre substantivo e adjectivo é bastante plausível. Se a escavarmos bem, notar-se-á um certo malabarismo sofista, mas como se pode responder a uma lógica da batata senão com outra lógica da batata? Ou seja, a nossa verdade emocional profunda leva muitas vezes a que uma ignorância, um erro, estejam afinal certos. Emocionalmente certos. E o adulto rebelde é precisamente aquele que desafia a cultura instituída com a manutenção, ao longo de toda a vida, das evidências errada/certas que trouxe da infância. Vinte e três anos depois da 4ª classe, podemos ainda não ter aceite o mundo convencional dos chamados adultos.

Também num livro que funciona como utopia doméstica da conjugalidade, quer-me parecer que esta recusa da diferença de estatuto entre substantivo e adjectivo pode estar ligada à reclamação de um estatuto social semelhante para o homem e para a mulher (que durante séculos foi vista como mero qualificativo do seu companheiro). Não é por acaso que Adília isola a letra a (feminina) como um pronome e a letra o (masculina) como um mero artigo. Não se trata propriamente de feminismo, mas da formalização de um ponto de vista sexual feminino. Certo certo é que não há bolas sem ser verdes ou vermelhas, como não há verdes sem ser cubos ou bolas: dito de outro modo, os humanos foram feitos para estabelecerem relações de dependência uns com os outros.

Na continuidade desta reflexão, o texto chega perto da filosofia. Faz mesmo lembrar o poema de Caeiro em que este diz que uma borboleta não é colorida, mas a cor é que tem cor nas asas da borboleta. Ou seja, Adília continua a tradição moderna (je est un autre) de cisão da noção de sujeito (neste caso, libertando o eu nominal das qualificações que mais ou menos ditatorialmente se lhe quer atribuir). Afinal, a professora não se lembrava do nome de Maria Andrade, mas recordava-se de que ela era burra (lembrava-se do adjectivo). Ora, Adília é demasiado rebelde para, apesar da integridade diacrónica da sua falta de qualidades, aceitar ser de algum modo qualificada. Como diria o outro: só sei que não sei.



Nota: uma boa parte do afecto causado pela poesia de Adília Lopes tem a ver com todo um mundo de referências (a 4ª classe, o croché, a Condessa de Ségur, as cartas de amor, o Vidal Sassoon, etc.) que já só faz sentido para a minha geração (pois ainda me lembro de frequentar esse mundo numa infância onde não poderia sequer imaginar o facebook, o telemóvel, as low cost, os centros comerciais, etc.). Será interessante ver como vai evoluir o apelo desta poética nas gerações seguintes.

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