domingo, junho 21, 2009

Interregno na subtileza

1. Num mundo ideal, eu seria um votante do Partido Socialista (mas esta frase tem tanto de radical ironia como de absurdo sem remédio...). Agora, em Portugal, eu espero, francamente, que o Engenheiro Sócrates vá à vida. O uso das legítimas aspirações a igualdade legal por parte dos homossexuais como uma arma de posterior manipulação eleitoral é, no mínimo, grave. Pois agora o lobo-cordeiro está a tentar fazer algo semelhante na cultura e na educação. Claro que, sendo a direita portuguesa uma caricatura de um pensamento conservador (desde o casamento procriador ao dinheiro do estado canalizado para defender a cultura morta), é natural que as pessoas a quem todos aqueles assuntos tocam profundamente estejam à beira de um ataque de nervos. Claro que a política é (dizem-me) a suprema arte do compromisso (e se calhar sempre esteve um Sócrates no Poder, eu é que nunca liguei muito à politiquice). Mas tudo tem um limite. Este blogue está desde hoje em campanha CONTRA.


2. O Poder começa a feder: já ninguém segura os comentadores de direita! Eles andam loucos. Sociólogos de todo o mundo, uni-vos no estudo desta raça (ou psicólogos, não sei...).

3. Deve ser muito difícil gerir as finanças, a educação, a saúde, a agricultura, a política externa... É verdade. Mas não me parece que a Cultura seja um campo assim tão problemático quanto isso. Basta um pouco mais de dinheiro (que será sempre residual num orçamento de estado), e bastante mais criatividade, eficácia e isenção. Mas o que eu já li e ouvi em torno deste tópico... Algures num blogue (não me lembro qual, senão fazia o link), cheguei a ver a afirmação de que o apoio de um artista a uma candidatura política não era um factor prestigiante para essa candidatura... Bem, se um artista está a contar com o poder do seu próprio prestígio, talvez já não interesse muito como artista. E se a candidatura não for do Gandhi ou do Mandela, será melhor dizermos que é a campanha que traz pouco prestígio ao intelectual. O prestígio é um conceito que só interessa aos inseguros. Não, a cultura que releva é sempre uma forma de contestação (não porque propriamente o deva ser, mas porque, ao contrário da politiquice, coloca os seus receptores em contacto com o que de mais profundo existe neles). E por isso talvez seja útil fazer sobre ela cair o anátema da inutilidade (afinal, a utilíssima política já não trata do mais profundo que existe em nós...). Os ideólogos da esquerda só falam de militância politizada (ou seja, de redução do criador a uma única dimensão) ou de prestígio. Os ideólogos de direita só sabem defender o entertainment (segundo eles, pode-se fazer reformas contra os interesses instalados - ou seja, contra aquilo que intervém directamente nas sobrevivências, mas não se pode, por exemplo, fazer filmes contra a preguiça instalada no espectador). Os ideólogos de esquerda estão sempre à espera da caução legitimadora dos Eduardos Prados Coelhos (Deus os tenha), os ideólogos de direita querem é tratar dos calhaus e dos livros que já têm barbas. O melhor é aproveitar todo e qualquer equívoco que a Cultura provoque (já que a complicam...). Por enquanto só escrevo, não preciso de dinheiro para dar livre curso à minha criatividade. Mas se precisasse, enfim, não quereria que ele viesse do George W. Bush nem do Ahmadinejad, mas Sr. Gulbenkian, Sr. Mecenas, Sr. Ministério da Cultura, Sr. Bill Gates: seja qual for a vossa motivação, a minha é outra, e os vossos trocos são muito bem vindos.

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