domingo, junho 07, 2009

Dar música

charivari


veja, caro e-leitor

se este fosse um poema de tema político
de imediato eu construiria uma auto-estrada
que ligasse o primeiro ao último verso

mas aí você criticaria
o meu modelo de desenvolvimento
e eu não gosto de ser cinzento
como as united colours of betão

não

eu 'stou aqui para falar da nostalgia

(o texto continua)


No excerto acima transcrito de um texto meu, a ironia é servida por metros (quatro hendecassílabos, um eneassílabo) cuja musicalidade nunca conquistou o estatuto de instituição na poesia portuguesa. A rima que une a palavra desenvolvimento à palavra cinzento, de algum modo profetiza uma necessidade de consonância que o verso seguinte concretiza de maneira provocadora: é um decassílabo heróico (um dos metros mais míticos da escrita lusa) onde a palavra betão parece ter a força de uma rima que, na verdade, não existe. Quer-me parecer que isto se deve, não só à escolha inesperada do metro (que traz uma estabilidade que o poema não conhecera até então), como a diversos outros factores: à preponderância em português das rimas em ão (numa arte poética, eu chego mesmo a comparar-me a um cão a latir por causa disso), à força da expressão publicitária que o verso deturpa mas que toda a gente conhece, e à própria afectividade emanada da palavra betão (que traz uma solidez conclusiva ao fim da estância). É uma espécie de rima no vazio, uma desrima (a mais justa para a descrição daquilo que se conhece precisamente como política do betão). Assim sendo, quando no verso seguinte surge a palavra não, agora sim produzindo-se um efeito de rima real, esta aparece estranhamente fragilizada, como se a estabilidade do verso anterior fosse um mero efeito suspensivo ao serviço de uma ironia estrutural que insiste em tragar toda a estabilidade.

Peço desculpa por usar um exemplo da minha própria escrita (é que eu sou o poeta que conheço melhor...). O que eu pretendo dizer é que, sendo a poesia o domínio da linguagem que trans-historicamente se demarcou pela atenção privilegiada dada ao significante, a institucionalização contemporânea do verso livre não é a opção que mais me estimula. A música antiga já não nos serve, é certo. Mas a música é um terreno de infinita experimentação que o poeta pode explorar de acordo com as suas necessidades.

Este post é também o meu contributo para a discussão das eleições para o parlamento europeu a que nenhum blogger se pode esquivar no dia de hoje.

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