domingo, junho 14, 2009

Cravos-ferraduras

1. Para que serve um ensaísta? Para criar no seu leitor o desejo de pensamento. Não precisamos de ensaístas com teses tesas.

2. Ninguém mais do que eu despreza o romantismo (curiosamente, não tanto pelas suas teses, mas pela mediocridade da poesia que em seu nome foi composta). No entanto, John Keats é um poeta imenso (repito, portanto: não precisamos de ensaístas com teses tesas). Aliás, é bom que alguém traduza a totalidade da sua obra para português, para que haja um bom poeta romântico na língua lusa.

3. No fundo, é preciso perceber como é que um conjunto de circunstâncias (biográficas, psíquicas, históricas, sociais, políticas, ideológicas, filosóficas, etc.) acabaram por formar uma irredutível personalidade de poeta. Eu até posso concordar com os críticos do Rilke (pobre homem, achava mesmo que era preciso viver em solidão à espera da musa). Rilke é um daqueles autores que nos quis fazer crer que não fazia xixi nem cocó. No entanto, eu abro um dos seus livros, e logo nos primeiros instantes de leitura fico completamente esmagado. Rilke é, a despeito de todas as teses tesas, um imenso poeta.

4. Receber prémios é estúpido. Recusar prémios é estúpido. Há autores que parece que escreveram uma imensidade de páginas só para poderem um dia recusar um grande prémio. O melhor é não perder o sono com nada disto. O melhor é receber o prémio e escrever logo um poema a dizer que receber e recusar prémios é muito estúpido.

5. Há, apesar de tudo, diferenças entre a Adília Lopes e o Shrek. Apesar de serem ambos feios como tudo o que é pop, a Adília explode sempre em irreverência, o Shrek é apenas um leve refrescar das educações conservadoras.

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