terça-feira, junho 16, 2009

Comentário a "The edge of love"

O aspecto mais simpático deste filme (de título hediondo) é a representação do poeta Dylan Thomas como a mais antipática das suas personagens (no limiar da crueldade, aliás). Quando visitei o Dylan Thomas Center, em Swansea, País de Gales, vi por lá uma excitada exposição sobre este filme que fazia prever uma hagiografia do pior calibre.

Para além da negatividade, Thomas é também a menos relevante das quatro personagens em torno das quais a narrativa se constrói. Presumo que seja uma subtileza: a ideia (estafadíssima, inexactíssima) de que o artista protagoniza melhor a sua obra do que a sua biografia.

Subtil também a atribuição de um certo dom da palavra à personagem de Cillian Murphy. Este interpreta William, o homem com uma serena vontade de perfeição, e aquilo que ele escreve deriva de uma espécie de poética da pureza (cheia de lugares comuns), nos antípodas do mundo luxuriante da escrita de Dylan Thomas.

De resto, o filme tem uma tese: a nostalgia da infância de que o poeta galês padecia acabou por torná-lo um ser infantilizado. Interessante, se calhar até é verdade (ainda não conheço a sua biografia de cor e salteado). No entanto, se isto diz qualquer coisa sobre o homem Dylan Thomas, é paupérrimo enquanto ilustração da sua poesia. Aliás, quase nem ouvimos os seus textos ao longo do filme, como se afinal a figura do poeta fosse apenas uma caução para contar mais um historinha telenovelesca de amor. Por isso, o filme não consegue ser mais do que académico. Todo seu o brique-à-braque técnico é sugado pela falta de oudadia até ao ponto em que perde qualquer expressividade.

Por fim, os actores. Matthew Rhys parece ser tão antipático quanto a sua personagem, pelo que foi um achado de casting. No entanto, não tem nada para fazer, a não ser o habitual número de circo da imitação dos tiques de uma pessoa real. Keira Nightley é, para mim, uma das actrizes mais irritantes do cinema actual (bem, também há a Zellweger...), e por isso escuso-me a comentar. Sienna Miller está muito bem como Caitlin Thomas, mas parece-me que a força sensual da personagem deveria vir do interior (ou seja, não era preciso sublinhar a beleza da actriz, muito pelo contrário). Cillian Murphy está magnífico na primeira parte. Sempre o achei superficialmente bonitinho (um pouco mais de peito e era a Keira Nightley), mas aqui todo o seu jogo, do físico à linguagem, acaba por dar origem a um personagem com algum fulgor romanesco (a do homem encerrado numa torre de marfim de seriedade, que precisa de passar pela guerra e pelo par de cornos para se tornar um ser suportável). Mas na segunda parte do filme já não tem nada que fazer (e quantas vezes já vimos aquela cena do cornudo de arma em punho...).

O melhor é ler a poesia de Dylan Thomas.

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