sábado, junho 27, 2009

Vertumno

"(...) Além de ter
de existir, uma pessoa tem de pagar todos os meses a existência."


Iosif Brodskii

Crónica do Museu

Na única vez que fui ao Louvre (que é um sítio onde uma pessoa que é pessoa deve ir), a visita seguiu-se a uma noite em que tinha estado numa discoteca com alguns companheiros de viagem e posteriormente regressado ao hotel a pé pelas ruas de Paris (continuo a não gostar de discotecas, mais os seus djs programadores e barmen curadores, mas acho que não há suficiente literatura sobre o ar livre nocturno das cidades). O que eu sei é que papei o maior número de quadrinhos possíveis, com curiosidade de atleta e resistência de intelectual comprometido, seguido pela raiva ensonada dos pés macerados dos compagnons de route. Juventude...

Hoje, apesar de querer muito regressar ao Musée Gustave Moreau, de querer ir a Berna ver os Klees, de me estar a apaixonar por gabinetes de curiosidades tipo British Museum; apesar de, portanto, a ideia de Museu não ter esmorecido no meu imaginário, a verdade é que mal começo a calcorrear um destes espaços, começo a sentir aquilo que os guias de viagem chamam "museum fatigue". Mesmo que na noite anterior eu tenha adormecido ao som dos patinhos, dez minutos são suficientes para eu já não me aguentar nas pernas, para me irritar histericamente com a inevitável carteira a tiracolo, para me apetecer correr o mais depressa possível para o exterior (nem que seja com clima de País de Gales), e para eleger, como momento alto da minha visita, a passagem pela cafetaria do museu (que costuma fornecer comida kitsch tão ao meu gosto). Ou seja, na verdade, o meu corpo detesta museus (ah! a condição humana...).

E ponho-me a pensar qual seria a melhor maneira de eu suportar esta prova de resistência exigida ao turista sem talento? Claro que a solução do "Bande à part" é uma solução à parte. Eu não sou desportista. Mas sprintar por entre Ballas e Boccionis, patinar em torno da Pedra de Roseta, usar os Munchs como obstáculos de corrida, saltar à vara sobre o corpo hipotético do dinossauro, ou fazer um triplo salto sobre partituras de polifonia eborense, tudo isso tornaria a prestação bem mais exaltante e coerente. Mens sana in corpore sano, e o ensaio e a ecfrase acabariam por se tornar modalidades olímpicas.

Gostava, isso sim, que em vez de me darem aqueles auscultadores que são traumatizantes porque podem ser calados a qualquer momento, me fornecessem um guia de carne e osso, pessoa de erudição infinita, com jeito para a anedota e o aforismo, mago da palavra e histrião intimista, pintor nas horas frustradas mas apaixonado pela sua frustração, que me levasse de peça em peça com o mesmo sex appeal com que o Mic Mic escapa a todas as armadilhas da raposa. Que contasse histórias, revelasse inquietações, deixasse perguntas no ar, mais Mário Viegas que Luís Miguel Cintra, mais Quim Barreiros que Michael Jackson, comerciante de souq.

Gostava, isso sim, que os museus estivessem submersos (não me venham com fahrenheits de chamas), e precisássemos de escafandro para os visitarmos, que fosse preciso vencer o medo do mergulho, exercitar a respiração, sofrer a cerimónia do pacto com um elemento raro, mas nos fosse dado contemplar Turners lado a lado com restos de galeões, a "Giaconda" açambarcada por seres condenados a sashimi, e tubarões mais dados à forma do que ao formol. Veneza, de novo, avant guarde...

Ou então gostava de ser um extraterrestre, e chegar à Terra quando esta por fim estivesse liberta dos humanos (ainda pode ser no meu tempo, portanto), e visitar os museus como quem considera que tudo é rupestre, no duplo sentido da rudeza vital e de uma vontade de fazer, de cada ponto de chegada, um ponto de partida. Depois iria a pé até Marte (onde não há Museus).


(Fotografia de Andrew Prokos)

quarta-feira, junho 24, 2009

"Shijie" - imagem

O INACTUAL 35

"Shijie" - Jia Zhang Ke (2004)


"Shijie" ("O mundo", em português) quase poderia ser um musical. Pelo tom, pela inocência das personagens, pelo trabalho cromático, pela musicalidade do conjunto. Gene Kelly e Leslie Caron dançam em Paris como o casal protagonista deste filme representa em frente de uma falsa Torre Eiffel. No entanto, é tudo menos um filme (de) provinciano.

O argumento de "O mundo" gira em torno de pequenas histórias (namoros, aproximações sexuais, infidelidades, zangas familiares, festas, ambições, procura de emprego, etc.) articuladas por meio da descontinuidade, da repetição, da elipse, da pontual falta de luz, das interrupções de tom, tudo organizado em torno de uma discreta estética do plano-sequência. O que essencialmente distingue o filme é que todas estas banalidades decorrem num Parque Temático de Pequim que lhes fornece, como cenários, imitações dos lugares mais famosos do mundo ao nível turístico (do Taj Mahal às Pirâmides do Egipto).

Contudo, para as personagens o estrangeiro acaba por revelar-se menos um apelo à evasão do que a geografia de todos os mitos (de todas as ideias que estão intelectualmente associadas a esses cenários). Os passeios de Tao no monocarril do Parque levam-na de lugar comum em lugar comum a grande velocidade (é uma verdadeira máquina do tempo). E é esta agilidade de um imaginário espiritual mundialmente partilhado que vem dar espessura à ficção descosida, aparentemente banal, sem grandeza.

Pois os personagens pensam que não representam no filme do mundo, pensam que vivem as suas pequenas narrativas sem serem contaminados pelos mitos civilizacionais. No entanto, não é isso que acontece. Não só ao nível das grandes linhas que afinal organizam o argumento das suas vidas (Tao exige um amor absoluto), mas sobretudo em termos da intensidade emocional com que as situações-chaves são vividas. As cenas passadas nos cenários-clichés não são meramente irónicas, mas sobretudo (e simultaneamente) exaltantes. Por exemplo, quando Tao lê uma mensagem sob um véu claro, à chuva, na falsa Praça de São Marcos, por um efeito de nostalgia cinéfila (que equivale a um regresso inconsciente aos fundamentos psíquicos) os espectadores sentem duplicada a comoção que a cena provoca. É como se um filme sempre anterior (o filme do mundo) viesse ao mesmo tempo revelar e desconstruir a profundidade cultural que existe por baixo de qualquer acto, por mais banal que seja.

Jia Zhang Ke faz não só um dos primeiros filmes relevantes sobre o conceito de Aldeia Global (relevância que é especificamente cinematográfica, e não literária), como talha um subtil manifesto político, ao confrontar os dirigentes da ditadura chinesa com a ideia de que não há propaganda nacional que seja capaz de vencer aquilo que está para lá das fronteiras (literais e metafóricas). O espírito resiste porque guarda em si mesmo o papelão da verdade corpórea.



(Para os manifestantes iranianos)

domingo, junho 21, 2009

Partilha 52

crítica da razão desconhecida


sim
.......o primeiro ataque foi precoce
poderoso
resultado não tanto do seu corpo
afinal demasiado diplomático
para insurgir os amargos da boca
mas do espectro de aromas:
nobreza vermelha, sémen silvestre
com notas de trabalho
e sugestões de morte e chocolate

mas logo a adstringência
levou ao final
prolongado e exuberante
do disparate

foi um voto, um talento, uma paixão
que abortou

Cat people



IOSIF BRODSKII



É muito raro percebermos, logo durante a primeira leitura de um poema de um autor que desconhecíamos, que a sua obra nos interessará.

Interregno na subtileza

1. Num mundo ideal, eu seria um votante do Partido Socialista (mas esta frase tem tanto de radical ironia como de absurdo sem remédio...). Agora, em Portugal, eu espero, francamente, que o Engenheiro Sócrates vá à vida. O uso das legítimas aspirações a igualdade legal por parte dos homossexuais como uma arma de posterior manipulação eleitoral é, no mínimo, grave. Pois agora o lobo-cordeiro está a tentar fazer algo semelhante na cultura e na educação. Claro que, sendo a direita portuguesa uma caricatura de um pensamento conservador (desde o casamento procriador ao dinheiro do estado canalizado para defender a cultura morta), é natural que as pessoas a quem todos aqueles assuntos tocam profundamente estejam à beira de um ataque de nervos. Claro que a política é (dizem-me) a suprema arte do compromisso (e se calhar sempre esteve um Sócrates no Poder, eu é que nunca liguei muito à politiquice). Mas tudo tem um limite. Este blogue está desde hoje em campanha CONTRA.


2. O Poder começa a feder: já ninguém segura os comentadores de direita! Eles andam loucos. Sociólogos de todo o mundo, uni-vos no estudo desta raça (ou psicólogos, não sei...).

3. Deve ser muito difícil gerir as finanças, a educação, a saúde, a agricultura, a política externa... É verdade. Mas não me parece que a Cultura seja um campo assim tão problemático quanto isso. Basta um pouco mais de dinheiro (que será sempre residual num orçamento de estado), e bastante mais criatividade, eficácia e isenção. Mas o que eu já li e ouvi em torno deste tópico... Algures num blogue (não me lembro qual, senão fazia o link), cheguei a ver a afirmação de que o apoio de um artista a uma candidatura política não era um factor prestigiante para essa candidatura... Bem, se um artista está a contar com o poder do seu próprio prestígio, talvez já não interesse muito como artista. E se a candidatura não for do Gandhi ou do Mandela, será melhor dizermos que é a campanha que traz pouco prestígio ao intelectual. O prestígio é um conceito que só interessa aos inseguros. Não, a cultura que releva é sempre uma forma de contestação (não porque propriamente o deva ser, mas porque, ao contrário da politiquice, coloca os seus receptores em contacto com o que de mais profundo existe neles). E por isso talvez seja útil fazer sobre ela cair o anátema da inutilidade (afinal, a utilíssima política já não trata do mais profundo que existe em nós...). Os ideólogos da esquerda só falam de militância politizada (ou seja, de redução do criador a uma única dimensão) ou de prestígio. Os ideólogos de direita só sabem defender o entertainment (segundo eles, pode-se fazer reformas contra os interesses instalados - ou seja, contra aquilo que intervém directamente nas sobrevivências, mas não se pode, por exemplo, fazer filmes contra a preguiça instalada no espectador). Os ideólogos de esquerda estão sempre à espera da caução legitimadora dos Eduardos Prados Coelhos (Deus os tenha), os ideólogos de direita querem é tratar dos calhaus e dos livros que já têm barbas. O melhor é aproveitar todo e qualquer equívoco que a Cultura provoque (já que a complicam...). Por enquanto só escrevo, não preciso de dinheiro para dar livre curso à minha criatividade. Mas se precisasse, enfim, não quereria que ele viesse do George W. Bush nem do Ahmadinejad, mas Sr. Gulbenkian, Sr. Mecenas, Sr. Ministério da Cultura, Sr. Bill Gates: seja qual for a vossa motivação, a minha é outra, e os vossos trocos são muito bem vindos.

sábado, junho 20, 2009

Eu também sou um investimento de futuro...

... e aceito todos os estudos prévios que me queiram fazer. Só me reservo o direito de escolher os estudiosos.

Intratado (e sem curador)

1. O espírito imaginoso não é um sintoma de evasão à realidade. Especialmente porque não nos é possível imaginar nada que não seja real. O espírito imaginoso é aquele que usa os átomos da realidade para criar moléculas de liberdade. A física do texto não é a física da vida. E se há química entre ambos, isso chama-se metafísica.

Dito isto, não gostava de ser como o Borges, que nasceu para ser cego. O que eu aprecio na imaginação é a duplicidade da imagem que ela é capaz de engendrar: por um lado exultando numa anarquia puramente mental, por outro pesando com a sensualidade da experiência. Quero escreviver um mundo onde haja árvores que dão laranjas e árvores que dão gambozinos.

Espero que isto não seja uma poética de bloco central.


2. Devo ser a única pessoa que acha que ler Dicionários de Poética e Retórica é uma modalidade do erotismo.


3. Conforme vou escrevendo, vou-me apercebendo de que os fenómenos de homofonia (como a rima) podem ser libertadores se não forem usados para estruturar o poema. Sinto agora a vontade de investigar se é possível uma igual atitude experimental perante as tendências formais que a história da poesia tentou cristalizar (em sonetos, sextinas, vilancetes, etc.). Ou seja: será possível usar uma intencionalidade formal prévia de modo a abrir o campo da forma poética em vez de o encerrar? Poderá o soneto ser uma fonte, em vez de um espartilho? Afinal, a matemática usa os números (verdadeiros modelos de rigidez) para realizar multiplicações, potências, raízes quadradas... Não sei se, no presente, ainda é impossível inventar (mas também não nasci velho como o Vasco Pulido Valente). Sei, isso sim, que o mundo antigo (esse que inventou a liberdade, a aspiração, o amor, a inquietação) não pode ser abandonado sem um pouco de luta.


4. Penso que "o trabalho do milionário", que agora estou a começar, será o livro onde eu vou formular a minha anarquia personalizada. Fuck you (diria o comendador Berardo).

quarta-feira, junho 17, 2009

O título

Quando eu abandonava o cinema no fim da exibição do filme "El cant dels ocells", um senhor protestava na bilheteira por não ter ouvido nenhum canto nem visto nenhum pássaro. Aquele título refere-se a uma belíssima melodia catalã de inspiração religiosa, que foi popularizada pelo violoncelista Pau Casals, e que é ouvida no filme no momento em que os reis magos se põe a adorar o Messias recém-nascido.

Partilha 51

charivari


veja, caro e-leitor

se este fosse um poema de tema político
de imediato eu construiria uma auto-estrada
que ligasse o primeiro ao último verso

mas aí você criticaria
o meu modelo de desenvolvimento
e eu não gosto de ser cinzento
como as united colours of betão

não

eu 'stou aqui para falar da nostalgia
que é ela mesma uma maneira de falar
mas à distância
uma espécie de petição de princípio
das andorinhas online
no fim de cada verão

eu 'stou aqui para anunciar
uma nuvem melancólica
o lento minar da paciência
atrás do camião do cachorreo
esperando encontrar por fim a hora
num relógio de sol a sol

para anunciar a alegria
o je ne sais pourquoi imarcescível
antologia de armas do futuro
o martinete de ouro que floresce
só quando há sanguechuva

venho falar-vos do desejo
mas depois
dizem-me as musas que há uma ameaça de bomba
e o poema tem de ser evacuado


Nota 1. Este é o primeiro poema de um livro cujo título será "o trabalho do milionário" (juro que não me inspirei no Cristiano Ronaldo). Tentarei, pela primeira vez, partilhar aqui todos os textos que, em princípio, completarão a recolha.

Nota 2. O cachorreo é um sistema salarial utilizado na exploração mineira nos Andes, que prevê que o operário trabalhe de graça 30 dias por mês, tendo direito a, no 31º dia, trazer consigo uma quantidade de pedra da mina, onde pode estar uma fortuna em ouro, ou, o que é mais frequente, absolutamente nada de valioso.

O ACTUAL 25

"El cant dels ocells" - Albert Serra


Neste belo filme de Albert Serra, os traços mais salientes da representação das figuras lendárias dos três reis magos são a velhice e a gordura dos seus corpos. O que aí se acusa é, não só a escravatura do físico humano (em contraste com as figuras leves e juvenis de Maria, José e do anjo algo pasoliniano), mas acima de tudo a antiguidade e o peso excessivos da fé. Não me lembro de alguma vez ter visto um filme que expusesse assim, de forma tão directa, a responsabilidade cansada daqueles que carregam um mito imemorial (imagine-se Romeu e Julieta velhos e obesos, tentando soletrar a custo o texto shakespeareano).

Todas as conversas e todas as acções (basicamente inacções ou desígnios banais) são encenadas de modo a fazerem o espectador quase suportar ele mesmo a dificuldade dos movimentos mais simples. E como a paisagem assume aqui um papel tão relevante quanto as personagens (que são figures in a landscape, como nos filmes de John Ford ou Theo Angelopoulos), tudo parece indicar que este é um cinema em busca de uma épica dos gestos primevos.

Em paralelo com um trabalho sonoro de extremo pudor (as conversas são sempre captadas como se estivessem a ser ouvidas de esguelha), o filme de Serra é também um estudo sobre a dificuldade de representação da figura de Cristo. A ovelha que Maria e José embalam não é uma metáfora do seu Filho (o Agnus Dei), mas um sintoma da infilmabilidade do divino. Há um lentíssimo processo de aproximação ao corpo do Messias recém-nascido (a dilação do Tempo é o elemento motor de toda a montagem), corpo esse que só é revelado com a chegada dos reis magos, com a chegada dos humanos (ou seja, do realizador). Pois só nós, vagarosos monarcas de nada mais que a travessia do deserto, precisámos que o divino tivesse assumido uma forma terrena para dar sentido ao nosso périplo convivial.


Nota. O filme já não está propriamente em exibição, mas ainda o posso incluir nesta rubrica de cinema contemporâneo.

terça-feira, junho 16, 2009

O eleitor

Há quem diga que, mais do que propriamente votarmos em partidos cuja infinidade de rostos quase sempre desconhecemos, deveríamos votar directamente em deputados com os quais poderíamos estabelecer uma relação de participação cívica. Não sei se é boa ou má ideia.

Sei que, pela primeira vez votei num partido (o Bloco de Esquerda) para tentar eleger uma pessoa que intelectualmente admiro (o historiador Rui Tavares). E não é que o elegi?

Nos próximos actos eleitorais, terei de decidir entre o desenho e a brancura.

Comentário a "The edge of love"

O aspecto mais simpático deste filme (de título hediondo) é a representação do poeta Dylan Thomas como a mais antipática das suas personagens (no limiar da crueldade, aliás). Quando visitei o Dylan Thomas Center, em Swansea, País de Gales, vi por lá uma excitada exposição sobre este filme que fazia prever uma hagiografia do pior calibre.

Para além da negatividade, Thomas é também a menos relevante das quatro personagens em torno das quais a narrativa se constrói. Presumo que seja uma subtileza: a ideia (estafadíssima, inexactíssima) de que o artista protagoniza melhor a sua obra do que a sua biografia.

Subtil também a atribuição de um certo dom da palavra à personagem de Cillian Murphy. Este interpreta William, o homem com uma serena vontade de perfeição, e aquilo que ele escreve deriva de uma espécie de poética da pureza (cheia de lugares comuns), nos antípodas do mundo luxuriante da escrita de Dylan Thomas.

De resto, o filme tem uma tese: a nostalgia da infância de que o poeta galês padecia acabou por torná-lo um ser infantilizado. Interessante, se calhar até é verdade (ainda não conheço a sua biografia de cor e salteado). No entanto, se isto diz qualquer coisa sobre o homem Dylan Thomas, é paupérrimo enquanto ilustração da sua poesia. Aliás, quase nem ouvimos os seus textos ao longo do filme, como se afinal a figura do poeta fosse apenas uma caução para contar mais um historinha telenovelesca de amor. Por isso, o filme não consegue ser mais do que académico. Todo seu o brique-à-braque técnico é sugado pela falta de oudadia até ao ponto em que perde qualquer expressividade.

Por fim, os actores. Matthew Rhys parece ser tão antipático quanto a sua personagem, pelo que foi um achado de casting. No entanto, não tem nada para fazer, a não ser o habitual número de circo da imitação dos tiques de uma pessoa real. Keira Nightley é, para mim, uma das actrizes mais irritantes do cinema actual (bem, também há a Zellweger...), e por isso escuso-me a comentar. Sienna Miller está muito bem como Caitlin Thomas, mas parece-me que a força sensual da personagem deveria vir do interior (ou seja, não era preciso sublinhar a beleza da actriz, muito pelo contrário). Cillian Murphy está magnífico na primeira parte. Sempre o achei superficialmente bonitinho (um pouco mais de peito e era a Keira Nightley), mas aqui todo o seu jogo, do físico à linguagem, acaba por dar origem a um personagem com algum fulgor romanesco (a do homem encerrado numa torre de marfim de seriedade, que precisa de passar pela guerra e pelo par de cornos para se tornar um ser suportável). Mas na segunda parte do filme já não tem nada que fazer (e quantas vezes já vimos aquela cena do cornudo de arma em punho...).

O melhor é ler a poesia de Dylan Thomas.

domingo, junho 14, 2009

beirais



"__________ se estiveres ausente (automóvel, comboio, avião, mudança de estação ou de cidade), compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua."


Maria Gabriela Llansol

No escrínio 46

Um poema de Adília Lopes:

"O problema da definição
do adjectivo
trabalha muito na cabeça
de Maria Andrade
suponhamos uma caixa
cheia de bolas
de várias cores
dizemos dá-me a bola verde
e dizemos que verde
é um adjectivo
e bola um substantivo
podemos dizer
dá-me a verde
mas em a
está a e bola
mas suponhamos uma caixa
cheia de sólidos
da mesma cor verde
dizemos dá-me o cubo
e não é preciso dizer verde
isto é
o cubo verde
e não dizemos
dá-me o verde cubo
no entanto verde está aqui
como bola estava
no exemplo anterior
e quando dizemos
dá-me o cubo
em o
está só o
não está o e verde
para Maria Andrade
era quase claro que o estatuto
do adjectivo
era o do substantivo
isto é
não há bolas sem ser verdes
ou vermelhas
como não há verdes
sem ser cubos
ou bolas
vinte e três anos depois
do exame da 4ª classe
Maria Andrade encontrou
a Dona Henriqueta
a professora
de instrução primária
não sei o seu nome
mas sei que não sabia
o que era um adjectivo
tinha dito a professora
de facto Maria Andrade
continua sem saber dizer
o que é um adjectivo"


À primeira vista, este texto de Adília Lopes, inserido na recolha intitulada "A continuação do fim do mundo" (1995), funciona apenas como manifestação da irreverência do poeta perante a normatividade conceptual da linguagem. Desde Wittgenstein que sabemos que a lógica da linguagem é a lógica da batata (para usar uma expressão da própria Adília). E, portanto, a actividade do escritor, apesar de ter de se desenrolar no contexto de uma linguagem, de certo modo desenvolve-se em oposição, em desafio dessa mesma linguagem. Não sei se aqui se pode entrever um desejo de cratilismo (de uma língua racional, isenta de arbitrariedade), mas há pelo menos a acusação de que a legislação gramatical acaba por constituir um assunto deveras bizantino, que nem sempre dá resposta às inquietações de quem escreve. O poema funciona, portanto, como uma paródia à teoria e como uma interrupção do saber instituído.

No entanto, eu penso que Adília vai mais longe (ou mais perto). Desde logo, surge aqui a constatação de que, por muito que um indivíduo cresça (e amadureça), há no seu intelecto zonas de ignorância que ele nunca conseguirá superar. Há coisas que não conseguimos aprender. Note-se que a argumentação de Maria Andrade no que toca à distinção entre substantivo e adjectivo é bastante plausível. Se a escavarmos bem, notar-se-á um certo malabarismo sofista, mas como se pode responder a uma lógica da batata senão com outra lógica da batata? Ou seja, a nossa verdade emocional profunda leva muitas vezes a que uma ignorância, um erro, estejam afinal certos. Emocionalmente certos. E o adulto rebelde é precisamente aquele que desafia a cultura instituída com a manutenção, ao longo de toda a vida, das evidências errada/certas que trouxe da infância. Vinte e três anos depois da 4ª classe, podemos ainda não ter aceite o mundo convencional dos chamados adultos.

Também num livro que funciona como utopia doméstica da conjugalidade, quer-me parecer que esta recusa da diferença de estatuto entre substantivo e adjectivo pode estar ligada à reclamação de um estatuto social semelhante para o homem e para a mulher (que durante séculos foi vista como mero qualificativo do seu companheiro). Não é por acaso que Adília isola a letra a (feminina) como um pronome e a letra o (masculina) como um mero artigo. Não se trata propriamente de feminismo, mas da formalização de um ponto de vista sexual feminino. Certo certo é que não há bolas sem ser verdes ou vermelhas, como não há verdes sem ser cubos ou bolas: dito de outro modo, os humanos foram feitos para estabelecerem relações de dependência uns com os outros.

Na continuidade desta reflexão, o texto chega perto da filosofia. Faz mesmo lembrar o poema de Caeiro em que este diz que uma borboleta não é colorida, mas a cor é que tem cor nas asas da borboleta. Ou seja, Adília continua a tradição moderna (je est un autre) de cisão da noção de sujeito (neste caso, libertando o eu nominal das qualificações que mais ou menos ditatorialmente se lhe quer atribuir). Afinal, a professora não se lembrava do nome de Maria Andrade, mas recordava-se de que ela era burra (lembrava-se do adjectivo). Ora, Adília é demasiado rebelde para, apesar da integridade diacrónica da sua falta de qualidades, aceitar ser de algum modo qualificada. Como diria o outro: só sei que não sei.



Nota: uma boa parte do afecto causado pela poesia de Adília Lopes tem a ver com todo um mundo de referências (a 4ª classe, o croché, a Condessa de Ségur, as cartas de amor, o Vidal Sassoon, etc.) que já só faz sentido para a minha geração (pois ainda me lembro de frequentar esse mundo numa infância onde não poderia sequer imaginar o facebook, o telemóvel, as low cost, os centros comerciais, etc.). Será interessante ver como vai evoluir o apelo desta poética nas gerações seguintes.

Cravos-ferraduras

1. Para que serve um ensaísta? Para criar no seu leitor o desejo de pensamento. Não precisamos de ensaístas com teses tesas.

2. Ninguém mais do que eu despreza o romantismo (curiosamente, não tanto pelas suas teses, mas pela mediocridade da poesia que em seu nome foi composta). No entanto, John Keats é um poeta imenso (repito, portanto: não precisamos de ensaístas com teses tesas). Aliás, é bom que alguém traduza a totalidade da sua obra para português, para que haja um bom poeta romântico na língua lusa.

3. No fundo, é preciso perceber como é que um conjunto de circunstâncias (biográficas, psíquicas, históricas, sociais, políticas, ideológicas, filosóficas, etc.) acabaram por formar uma irredutível personalidade de poeta. Eu até posso concordar com os críticos do Rilke (pobre homem, achava mesmo que era preciso viver em solidão à espera da musa). Rilke é um daqueles autores que nos quis fazer crer que não fazia xixi nem cocó. No entanto, eu abro um dos seus livros, e logo nos primeiros instantes de leitura fico completamente esmagado. Rilke é, a despeito de todas as teses tesas, um imenso poeta.

4. Receber prémios é estúpido. Recusar prémios é estúpido. Há autores que parece que escreveram uma imensidade de páginas só para poderem um dia recusar um grande prémio. O melhor é não perder o sono com nada disto. O melhor é receber o prémio e escrever logo um poema a dizer que receber e recusar prémios é muito estúpido.

5. Há, apesar de tudo, diferenças entre a Adília Lopes e o Shrek. Apesar de serem ambos feios como tudo o que é pop, a Adília explode sempre em irreverência, o Shrek é apenas um leve refrescar das educações conservadoras.

quinta-feira, junho 11, 2009

O Jornal do Cabo 2

Disseram-me que eu fiz uma grande figura de urso aquando da publicação do primeiro número deste Jornal. Por isso mesmo, resolvi prosseguir essa aventura polar.

Nos últimos dias, o acaso tem-me posto em contacto com uma infinidade de pedintes requerendo uma esmola da minha bolsa apertada. Como sempre, não sei de todo o que hei-de fazer e acabo por tentar livrar-me da situação o mais depressa possível. Mas são tantas as questões éticas que o problema levanta... Do alto da minha ignorância, partilho aqui algumas:


1. Qual o sentido ético profundo da atitude daquela pessoa que nada em dinheiro mas diz: "eu dou uma esmola para ficar de bem com a minha consciência"? Qual é a cotação actual da consciência? O que pesa mais na consciência: a cidadania esclarecida ou o atavismo religioso?

2. Quão diferente era o problema da mendicidade no tempo em que a caridade foi instituída como virtude? O que será mais determinante na produção contemporânea de um mendigo: os caprichos da economia ou a implacabilidade da psicologia?

3. Como se pode, de facto, ajudar um mendigo? Se, em vez de dar o peixe se deve ensinar a pescar, até que ponto é que a esmola não se confunde com um rendimento mínimo paralisante de inspiração privada?

4. Conhecendo a sociedade como todos conhecemos, poderemos ser paternalistas ao ponto de obrigarmos um marginal a reentrar na dita sociedade? Por outro lado, poderemos permitir que alguns membros da nossa espécie se mantenham excluídos do conforto que nós, a maioria ocidental, para nós mesmos conquistámos? Como sabemos até que ponto uma decisão de auto-exclusão é, de facto, uma decisão?

5. Como se pode ser fanaticamente católico e ao mesmo tempo desprezar uma economia fundada numa certa generosidade ingénua? Dito por outras palavras, como se pode ser Bagão Félix?

6. Estarão os mendigos todos conluiados em cínicas sociedades de esquemas cujo sucesso depende do sentimento de culpa dos endinheirados? Mas se o seu modo de ganhar a vida é inútil, quantas profissões supostamente respeitáveis também não o serão? Deverei dar esmola ao BPP? Quem decide o que é um bom modo de ganhar a vida? O que estamos todos a fazer no planeta senão sobreviver?

7. Estaremos a evitar o contacto directo com a urgência do real, se proclamarmos que a caridade é completamente inútil, o tipo de sociedade é que tem de, um dia, mudar?

8. Por que razão não há notícias sobre este assunto, reportagens, investigações, estudos académicos? E se os há, por que não lhes temos acesso fácil?

Tudo dito

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever


Adília Lopes

Retalhos da vida de um jovem 5

O padre Concha (o nome está pixelizado para evitar o reconhecimento da sua verdadeira identidade) foi o segundo professor de música que tive no Colégio Internato dos Carvalhos. Era um homem virtuoso, especialmente no manejo da baqueta nas cabeças dos alunos que se portavam mal. Segundo Ele.

O padre Concha foi o primeiro mentor do único Grupo de Jovens (os bandalhos cristãos são sempre jovens) no qual participei (o segundo foi o padre Argilas - nome igualmente pixelizado -, que tinha os pés tão grandes que poderia ser um santo a contrario, que escrevera um livro que tinha "30 temas, dava para tudo" - sic - e cuja coroa de glória era o facto de ter sido o primeiro docente da Faculdade de Psicologia do Porto a ter reprovado nas provas para o doutoramento).

Ah, os Grupos de Jovens... Nos Grupos de Jovens, os rapazes ou são amaricados (o que não estimula nada um verdadeiro maricas) ou já trazem, marcado no rosto, o destino de futuros autarcas do PPD/PSD ou do CDS/PP, as raparigas têm ar de que nunca foram de facto comidas, há sempre alguma que frequentou, sem sucesso, o Conservatório, por vezes uma outra com ar de halterofilista masculino, há sempre quem saiba tocar guitarra (cantar torna a alma mais pura, e a guitarra é absolutamente insuspeita no que toca a evocações do corpo), há sempre um padre insuportável que se esforça imenso por parecer porreiro (aprecia os Mão Morta e o Quentin Tarantino) e discutem-se muitos temas. Sempre os mesmos temas: o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, a eutanásia das discussões sobre o aborto, a homossexualidade da eutanásia, a interrupção voluntária da participação num Grupo de Jovens até às dez semanas (sob pena de, passado esse prazo, o jovem se ter tornado um aborto), etc. Essa gente só não é hippy porque se lava muito, porque prefere drunfar-se com hóstias, e além disso tem toda uma imensa Guerra Santa no seu passado genético.

No entanto, o Grupo de Jovens em que eu participei era apenas um conjunto de rapazes hormonalmente desequilibrados que tinham de aturar o padre Concha. O assunto favorito do padre Concha era a masturbação. Conhecedor das tecnologias de ponta ao nível da publicidade, o pastor arrebanhava-nos com os magníficos gráficos que fazia no quadro negro (desenhos que, perdoe-me nosso senhor, eram menos inocentes que os de Salvador Dali), infinitas espirais de giz, descrevendo o abismo de egoísmo que o onanismo fazia no psiquismo do punheteiro (ufa, acabou a rima). O que o padre Concha queria era vender Skip, com bata em vez de batina e trocando as suas baquetas por uma daquelas canetas enormes que contam com o seu próprio tamanho para conduzir as ovelhas por um quadro negro constelado de gráficos de grande validade científica. Mas como o sexo é o oposto do pó, e a situação daqueles jovens era preta, o padre Concha teve de resignar-se a lavar mais branco com as palavras do Sr., validadas por mais de sessenta e nove marcas de preservativos.

Mas o estúpido era eu. Embora já me divertisse a riscar santinhos com o rosto de Jesus, era um menino tão bem comportado que fazia tudo para agradar aos adultos (e até cantava em vários coros). Assim sendo, resolvi contar ao Padre Concha, durante uma confissão, que praticava o vil pecado da masturbação. Alarmado, o velho manteve-me ajoelhado durante uma boa meia hora, dissertando sobre os malefícios daquele tabaco. Quando saí do confessionário, os meus colegas, que sempre haviam pensado que eu seria canonizado ainda em vida, olharam para mim com um misto de horror e admiração (eles, que faziam o serviço em cinco minutos).

Mais tarde, fui falar com o padre Concha no seu gabinete. E ele lá continuou a sua prática, contando thrillers sobre aqueles maridos que, fechados em si mesmos como numa concha, preferiam masturbar-se a dormir com as esposas a seu lado na cama. Claro que o padre nunca pôs a hipótese das esposas serem camafeus. No entanto, este seu profundo entendimento da vida conjugal e do funcionamento do cérebro humano levaram-me a supor que ele nem sequer seria aceite para participar num estágio da Universidade Júnior no departamento de Psicologia.

Lá me perguntou se eu comprava revistas, se fantasiava com coleguinhas e coisas quejandas. Ainda bem que eu não lhe disse qual o teor da minha imaginação erótica, ou nem sei o que a curiosidade do homem me teria feito. Enfim, mais inquérito menos homilia, a coisa lá caiu no esquecimento.

O que eu não entendo é qual a razão que me levou a um acto tão beato, quando eu tinha a certeza absoluta de que, nem que o padre Concha me tivesse tentado vender o mais ardente dos Infernos, eu nunca iria parar de me masturbar. O que mais há-de fazer um rapaz de doze anos, quando começa a ouvir a música das feras, mas ainda não lhes pode passar a mão pelo pêlo?

quarta-feira, junho 10, 2009

Diário das obras

Fazendo uma brevíssima adenda ao que escrevi neste post, informo os meus futuros leitores (categoria deprimente, esta...) que desisti do projecto de escrever os poemas "Évora" e "Quem me dera ser mosca tzé tzé" a que aí fiz referência, mas em compensação dei por terminado o livro de poesia erótica-amorosa com a inclusão de um texto novo, chamado "a evidência de P (rimance)".

Por seu lado, a recolha passou agora a ser intitulada: "é tão difícil escrever sobre isto".

domingo, junho 07, 2009

Hum!...

"_______ para mim, o imaginário é uma extinção do fogo da melancolia."

Maria Gabriela Llansol

Imagem de "Fata morgana" (sem som)

Na miragem fata morgana, a linha do horizonte (o fim ou o princípio) tende a desaparecer. No seu lugar, o movimento humano toma o aspecto de uma ilusão onírica, suspensa, desfocada e rutilante.

O INACTUAL 34

"Fata morgana" - Werner Herzog (1971)


A miragem conhecida como fata morgana tanto pode surgir de madrugada como ao pôr-do-sol. Werner Herzog construiu este filme de modo a que as suas imagens-miragens não nos permitam dizer com certeza se elas representam um início mítico do mundo (como sugerem os textos em off, mas também a presença quase exclusiva de crianças, o primitivismo das construções arquitectónicas e o vazio do deserto) ou o seu mítico fim (a omnipresença de destroços, os edifícios abandonados, os cadáveres de animais e, claro, o polissémico vazio do deserto).

No fundo, o Homem impõe um sentido à paisagem que ela não tem. Os textos acabam assim por ser as miragens destas imagens (daí o seu teor feérico). Podemos mesmo supor que, na relação entre imagem e texto, este aparece invertido e alongado verticalmente como os palácios dos contos de fadas (que é a deformação óptica específica que se atribui à fata morgana). Se Herzog assume o papel de cineasta extraterrestre, é precisamente para poder filmar de modo ambíguo. Se não se pode abolir o sentido, pode-se pelo menos torná-lo tão transparente & obscuro quanto a própria paisagem.

"Fata morgana" resulta de uma estranha pulsão documental, a partir da qual se filma o planeta Terra como o mais estranho dos lugares (falo de pulsão documental porque a féerie é toda conseguida sem recurso a outros efeitos especiais que não sejam os do próprio real). Mas o seu único sentido que talvez não seja uma miragem é a constatação de que o Homem é aquele ser que se define pela consciência que tem da sua própria decadência.

Dar música

charivari


veja, caro e-leitor

se este fosse um poema de tema político
de imediato eu construiria uma auto-estrada
que ligasse o primeiro ao último verso

mas aí você criticaria
o meu modelo de desenvolvimento
e eu não gosto de ser cinzento
como as united colours of betão

não

eu 'stou aqui para falar da nostalgia

(o texto continua)


No excerto acima transcrito de um texto meu, a ironia é servida por metros (quatro hendecassílabos, um eneassílabo) cuja musicalidade nunca conquistou o estatuto de instituição na poesia portuguesa. A rima que une a palavra desenvolvimento à palavra cinzento, de algum modo profetiza uma necessidade de consonância que o verso seguinte concretiza de maneira provocadora: é um decassílabo heróico (um dos metros mais míticos da escrita lusa) onde a palavra betão parece ter a força de uma rima que, na verdade, não existe. Quer-me parecer que isto se deve, não só à escolha inesperada do metro (que traz uma estabilidade que o poema não conhecera até então), como a diversos outros factores: à preponderância em português das rimas em ão (numa arte poética, eu chego mesmo a comparar-me a um cão a latir por causa disso), à força da expressão publicitária que o verso deturpa mas que toda a gente conhece, e à própria afectividade emanada da palavra betão (que traz uma solidez conclusiva ao fim da estância). É uma espécie de rima no vazio, uma desrima (a mais justa para a descrição daquilo que se conhece precisamente como política do betão). Assim sendo, quando no verso seguinte surge a palavra não, agora sim produzindo-se um efeito de rima real, esta aparece estranhamente fragilizada, como se a estabilidade do verso anterior fosse um mero efeito suspensivo ao serviço de uma ironia estrutural que insiste em tragar toda a estabilidade.

Peço desculpa por usar um exemplo da minha própria escrita (é que eu sou o poeta que conheço melhor...). O que eu pretendo dizer é que, sendo a poesia o domínio da linguagem que trans-historicamente se demarcou pela atenção privilegiada dada ao significante, a institucionalização contemporânea do verso livre não é a opção que mais me estimula. A música antiga já não nos serve, é certo. Mas a música é um terreno de infinita experimentação que o poeta pode explorar de acordo com as suas necessidades.

Este post é também o meu contributo para a discussão das eleições para o parlamento europeu a que nenhum blogger se pode esquivar no dia de hoje.

sábado, junho 06, 2009

PUB

Este pessoal toca bem (música antiga, flauta de bisel, tudo o que possa haver de menos evidente). O cabo faz lobby por eles.

Lançaram o disco "The bad tempered consort". À vossa consideração.

Jesúvio

Encontrei no YouTube esta maluqueira feita a partir de um excerto de um dos textos sobre o sol de Georges Bataille...

Vi ontem, por fim, "La belle noiseuse"...

... mas fiquei com a impressão de que teria gostado mais do filme se ele tivesse sido construído a partir do famoso ditado: "Quanto mais obra-prima, mais se lhe obra-arrima".

quarta-feira, junho 03, 2009

O estado das obras 2

De narcisismo em narcisismo, vou dando conta do estado das obras.

Terminei hoje uma recolha de poemas. Como é um livro com uma organização matemática firme, sei que não posso ceder à tentação de o aumentar (o que, em mim, é bastante normal...).

Passo a explicar. O livro chama-se "Caminho estreito para o que está mais perto", e é, como o nome indicia, uma recolha de haikus (muitos deles já publicados aqui no blogue). É composto por três partes: a. três sequências com três haikus cada uma (Três tercetos), b. cinco sequências com cinco haikus cada (Cinco quintetos), e c. sete sequências com sete haikus cada (já não preciso de revelar o título...).

Ao todo são 83 haikus. Todos partem de uma aproximação ao esquema e ao tom desenvolvido por Matsuo Bashô, mas tentam funcionar como poemas contemporâneos. Entre o lirismo e o sarcasmo, ora mais intemporais ora ancorados no presente, acabam por compor um cancioneiro com a minha mundividência.

terça-feira, junho 02, 2009

Uma leitura de "O idiota" de F. Dostoiévski

O romance "O idiota" é uma invulgar comédia. Não porque faça rir o seu leitor (de modo algum pretende ser uma comédia de facto), mas porque investiga todas as modalidades de ironia que resultam do embate entre o absoluto (as personagens do idiota e de Rogójin) e a relativização social na qual esse absoluto tem de progredir.

Dostoiévski não descreve uma sociedade de crentes. Pelo contrário, nas suas personagens coloca todas as modalidades possíveis da relação, ou da falta dela, com a fé. No entanto, a sociedade de "O idiota" vive imersa numa espécie de inconsciente religioso (especificamente cristão), a partir do qual se formam as consciências de todos os seus indivíduos. Basta atentar no petit jeu que algumas personagens decidem fazer em casa da personagem Nastássia (cada uma deve contar a maior iniquidade que alguma vez praticou), para ficarmos cientes da importância que o mito da confissão tem para a Rússia do século XIX.

O Príncipe Lev Míchkin (o idiota) é a personificação (ou alegorização) do Bem, e Rogójin representa, claro está, o absoluto do Mal (a história começa com os dois sentados frente a frente num comboio, e termina com eles a dormirem lado a lado na divisão contígua ao quarto onde jaz o cadáver de Nastássia, a mulher a salvar). Ou sendo mais rigoroso, o idiota dá corpo à possibilidade inverosímil de um amor sem egoísmo, enquanto que o seu oposto transporta consigo a omnipresente ameaça da morte. A primeira questão que se coloca no romance é: estes personagens poderiam existir? Note-se que Rogójin (e muito particularmente o seu olhar) aparece a maior parte das vezes figurado como uma alucinação das outras personagens. E o Príncipe é constantemente equiparado a Cristo ou a D. Quixote. Quer-me, aliás, parecer que a figura do general Ivólguin, um mitómano incorrigível que afirma ter sido, em criança, íntimo de Napoleão (o que é impossível, mesmo do ponto de vista cronológico), tem a função de precisamente sinalizar a impossibilidade real de alguém poder encontrar um ser humano como o Príncipe.

A biblioteca que fez a loucura do Quixote é aqui substituída pela educação isolada (numa aldeia) que o Príncipe teve. Foi a aldeia que fez de Lev um idiota, e de Nastássia uma marginal. Se tivessem sido educados num ambiente gregário (nomeadamente, no espaço urbano), as suas desgraças originárias (a epilepsia dele e a violação sexual que ela sofreu) seriam certamente relativizadas e teriam formado seres eventualmente doridos mas muito mais equilibrados (verosímeis). No contacto com o Príncipe (com a sua transparente bondade, com a sua invariabilidade ética), todas as outras psicologias são exacerbadas até à náusea. Como se ele tivesse sido expelido directamente do inconsciente cristão sem ter passado pelos usuais processos de normalização social, e nenhum ser humano fosse capaz de aguentar isso.

O que o Príncipe e Rogójin trazem de aflitivo (de romanesco) é a sua definitividade. Os momentos mais pungentes da narrativa surgem quando Ippolit (um imaturo que finge que quer ser odiado) fica transtornado por saber que vai morrer em breve, e quando Nastássia tem por duas vezes a possibilidade de contrair um casamento sério (e das duas vezes se escapa). É a angústia do condenado no momento anterior ao cumprimento da sentença. Claro que estamos no contexto de uma sociedade pré-divórcio, na qual o matrimónio tem todas as características de uma condenação definitiva. Mas é precisamente o medo da condenação à felicidade (do casamento com o Príncipe) que faz com que Nastássia enlouqueça. Como se, para alguém de tal modo abismado no seu próprio sofrimento e proscrição, a alegria de finalmente ser respeitado fosse de tal modo desmesurada que não pudesse ser aceite.

Ora, entre a sentença e o seu cumprimento, há todo um romance. Dostoiévski escreve como se a folha de papel onde a sua caneta evolui equivalesse à brancura do condenado à morte. No entanto, ao contrário do que ele defende (uma primazia da convulsão do conteúdo sobre os processos de o comunicar), Dostoiévski trabalha, sim, as formas. Seja através de uma técnica a que poderíamos chamar de "narração-rumor" (o livro é quase um tratado sobre os procedimentos oitocentistas de alcovitar um matrimónio), seja por recurso a uma desomnisciência selectiva (reduzindo a acção ao "pelos vistos" que a tradução de Nina e Filipe Rocha tantas vezes fornece), "O idiota" é construído como um romance no qual a Alegoria se apresenta de tal modo visceral que não podemos olhar para ela a não ser do ponto de vista do nosso Realismo incompleto e ineficaz. O romance dilui-se na mesma obscuridade em que se encontra, no final, o cadáver de Nastássia: a mulher que, incapaz de aceitar a sentença do amor, correu para os braços da sentença de morte.

segunda-feira, junho 01, 2009

O estado das obras

Há já bastante tempo que tinha dado por encerrado o meu livro (de inéditos) "nu abrir em nó", de temática erótico-amorosa.

Contudo, recentemente acrescentei-lhe cinco novos poemas, cujos títulos são os seguintes: "Azul", "Match point", "Tenrura", "In absentia" e "Partitura para oboé d'amor (poème à clef)". Os últimos dois parecem-me particularmente bem conseguidos. Tenho mais duas ideias a assediarem-me (textos provavelmente intitulados "Évora" e "Quem me dera ser mosca tzé tzé", assim mesmo com z), mas parece-me que o assédio não é forte nem concreto o suficiente.

O título da própria recolha também está aberto a negociações. O sentido é óbvio: evoca o laço que surge entre duas pessoas que partilham a sua nudez (e fá-lo a partir do infinitivo do verbo). Mas não me parece uma expressão eficaz (é mais bizarra do que eloquente). Aceito opiniões...

De qualquer modo, fica aqui esta nota narcísica para os meus futuros leitores (não partilharei aqueles textos no blogue).