segunda-feira, maio 25, 2009

O INACTUAL 33

"Nostalghia" - Andrei Tarkovsky (1983)


O ecrã cinematográfico é uma imensa piscina, uma poça de água enlameada (imagem do mundo, portanto) por onde o tempo corre, e nele e com ele corre todo o mostruário da beleza inútil (folhas de árvore, penas de ave, animais, os incessantes gotejar e crepitar, a chuva, o fogo, a luz, o nevoeiro, os reflexos, os objectos de eleição, as recordações, a música, a poesia, a pintura, as conversas e seus silêncios, os rostos, etc.). Mas se cada uma destas relíquias improváveis é a evidência de uma suposta resistência do divino (de uma origem de água límpida), a verdade é que, para ascenderem a esse impoder, elas precisam de ser arrancadas ao domínio do utilitarismo.

Em Tarkovsky, a imagem-Tempo é a viagem da libertação dos seres sublimes, e o movimento (coreografado com precisão para ter a aparência do acaso) existe para exprimir a imprevisibilidade, a lentidão e a carnalidade sensual desse mesmo Tempo.

No entanto, parece-me que a fé por que o realizador milita é a fé do Homem na sua Humanidade, é a luta que cada indivíduo tem de travar consigo mesmo para não deixar que a sua chama se apague. Eugenia, a fêmea sentimental que conduz Andrei por terras italianas, tem uma chama com défice de ambição (apenas o desejo da felicidade individual). Mas o louco Domenico também lida com um fogo de tal modo amplificado (o grande projecto) que apenas consegue provocar a destruição: da sua família (fechada durante anos em casa) ou de si mesmo (a auto-incineração no comício de alienados em Roma). Fogo-fátuo ou fogo destruidor.

É a pequenez de uma vela acesa que é preciso fazer atravessar na água enlameada sem permitir que ela se extinga (e esta inutilidade traz mais proventos do que o projecto laboral do protagonista). Assim, o famoso plano-sequência que expõe o ritual essencial já não distingue entre sentido, vida e cinema, na medida em que a manutenção de uma chama de vela num exterior com vento se revela uma espécie de peripécia do próprio acto de rodagem do filme (o plano é mesmo muito longo). Mas a humanidade da alma é isso mesmo: uma fragilidade rigorosa que a qualquer momento se pode perder.

A nostalgia enunciada no título da obra não é propriamente a nostalgia de uma terra natal (embora ela esteja presente, mesmo ao nível das tangentes autobiográficas do argumento: o pai do autor era o poeta Arseni Tarkovsky, citado no filme; o personagem principal chama-se Andrei e, como acontecia com o realizador na altura, estava a experienciar um afastamento geográfico-cultural da Rússia). É a nostalgia de um tempo mítico no qual não havia separações artificiais entre os Homens e entre as suas Culturas.

O realizador trabalha, então, a montagem cinematográfica de modo a tentar propor um método de tradução. Até ao plano da travessia da vela, os seres vogam no ecrã em estado de aparente desordem, entre o nonsense e o sentido casual (como se a encenação de Tarkovsky, sob a sua camada de sedução hipnótica, degenerasse sempre na revelação de uma Babel lata). Note-se que o obsessivo movimento de câmara, ao gerar contínuas novidades de enquadramento, funciona como uma espécie de montagem sem cortes. Depois daquele plano simbólico (epopeia da real medida do Homem), plano no qual se organiza a encenação-montagem em torno de uma acção única (de um trabalho), a imagem final, fortíssima, aparece como a regeneração semântica do protagonista e do espectador que tenha pactuado emocionalmente com o que o filme lhe proporcionou até então. O movimento de câmara (um travelling para trás bastante regular) quebra as fronteiras do tempo e do espaço (a neve cai sobre a casa russa ou sobre a abadia italiana?) e, ao fazê-lo, em vez de produzir o caos, afirma a liberdade profunda do espírito.

Tarkovsky sabe que faz cinema (sempre gostou de recorrer a trucagens), e por isso investe naquilo que eu chamaria de dom do milagre: a consciência de que a intensidade do espírito (a imaginação) não se opõe nem se confunde com a chaneza do material, antes lhe confere um horizonte. A neve, beleza liberta, corporiza agora a resistência do humano.

3 comentários:

petit paysan disse...

belo. welcome back, dead or alive
:)

pedroludgero disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
pedroludgero disse...

obrigado.