sexta-feira, maio 29, 2009

Adenda a "O inactual 33"

1. Josef von Sternberg dizia que um cineasta se define por aquilo que oculta e por aquilo que revela. É estranho que seja este autor a propor tal separação artificial, na medida em que os seus filmes com Marlène Dietrich, ao tentarem ocultar a relação realizador-actriz numa estética do papelão, acabam por ser perigosamente reveladores...

No plano-sequência da vela do filme "Nostalghia" de Andrei Tarkovsky, há uma dimensão de suspense que é causada pelo facto da chama dessa vela estar parcialmente ocultada pela mão do protagonista durante a travessia da piscina, o que faz com que o espectador não consiga tirar os olhos do elemento-fogo que fragilmente sobrevive para lá dessa mão. Claro que o suspense é a consequência menos produtiva do gesto. Nele poderemos descortinar outras tensões, como aquela que impede que a opacidade do corpo humano não revele o espírito que o anima (e que ele protege). No entanto, devemos talvez concentrar a nossa leitura na superfície da dualidade ocultação/revelação, na medida em que a simplicidade eficaz dessa acção quase única acaba por fazer do plano uma espécie de haiku escrito com o Tempo (o haiku é um género poético caracterizado por uma contenção compositiva capaz de uma ressonância desmesurada, que serviu de modelo à poética de Tarkovsky mas que, nunca como aqui, pôde ser evocado com tanta propriedade).


2. Não sei se existe, na língua russa, uma relação entre a denotação associada à palavra chama e a sua figuração na ideia de alma (ou espírito, ou força anímica). Isso não impede que a evocação que "Nostalghia" faz do elemento fogo não traduza uma ideia semelhante àquela a que temos acesso directo em português (basta atentar na situação psicológica do protagonista).

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