domingo, março 01, 2009

Últimas notas sobre "Slumdog Millionaire"

1. Quando um filme usa uma estrutura de conto de fadas para abordar as relações sentimentais, o coro é unânime: isso é pura imaturidade, o amor não funciona assim. Se por um lado o coro, mais gregário do que grego, tem razão (o amor é mais problemático e acima de tudo infinitamente mais rico do que a promessa do conto de fadas), a verdade é que menosprezam a importância que esse género narrativo teve no desenvolvimento psíquico (sexual e relacional) das infâncias e adolescências do passado. O seu papel foi, aliás, substituído pela ficção cinematográfica ao longo do século anterior.

É estranho que agora se aceite, com candura militante, a mistura do conto de fadas com a sordidez violenta da miséria social. Note-se: a miséria é um assunto muito mais trágico do que o amor sentimental (apesar de que o amor em sentido lato é um dos dois ou três temas de que a Humanidade pode falar - mas isso tem tudo a ver com a miséria). Exige muito mais maturidade da nossa parte. Note-se ainda: quase ninguém hoje aceita que se faça uma leitura marxista de toda essa situação (cuidado com as utopias!, cuidado com os idealismos fáceis!). E ainda mais uma nota: a monarquia dos contos de fadas era apenas um simplismo simbólico; de modo algum haveria um discurso sociológico em tais narrativas de recorte psicanalítico. Pergunto-me então onde podemos encontrar legitimidade ética (e política) para traduzirmos um profundo sofrimento social através de uma forma narrativa que promete uma felicidade perfeita em compensação divina por um (inverosímil) bom comportamento. Não conheço nenhum religioso profundo, nenhum conservador ideológico inteligente, nenhum pensador de esquerda desperto, nenhum homem empenhado para além do narcisismo, que pudesse aceitar esta grosseria. Mas como se trata de cinema, aceitamos tudo.

Este filme é filho de uma das obras mais obscenas da história do cinema: "O milagre de Milão" de Vittorio de Sica.


2. Elogia-se ainda o vigor narrativo de "Slumdog millionaire". Em primeiro lugar, o cinema é, por definição, a arte da montagem de imagens e sons. Apenas. Se ele se tornou, maioritariamente, uma fábrica de contar histórias, defendo que isso é resultado de um processo histórico, e não um destino derivado de uma qualquer essência. Mas mesmo quando nos restringimos à específica cultura do storytelling, temos de avaliar a abordagem narrativa de cada objecto fílmico, não pelo virtuosismo superficial que dela emana, mas pela sua função semântica no contexto desse objecto. Não interessa, por exemplo, se uma imagem é bela: interessa é saber como essa imagem se relaciona com a estrutura global do filme em que se insere e qual a sua relação com a construção do sentido desse filme. Por isso, assim como não fico pasmado com os números de circo que os pianistas cometem perante as partituras de Franz Liszt, também não me impressionam as peripécias narrativas dos chicos espertos (não, nem as de Quentin Tarantino). Quero é saber onde me leva essa narrativa, que grande mito pretende convocar, o que revela, o que esconde, o que dá ao filme, o que lhe tira, qual o seu lugar em cada imagem, na montagem, que respeito tem pelas personagens e por mim enquanto espectador.

2 comentários:

Bruno Scartozzoni disse...

Belíssima análise!

Slumdog Millionaire segue a mesma fórmula de Star Wars, e portanto das mitologias estudadas por Joseph Campbell.

E parabéns pelo blog.

pedroludgero disse...

Obrigado pelas tuas palavras.