domingo, março 01, 2009

Sensibilidade e censura

Depois da lamentável oposição ao episódio de censura pela polícia bracarense com base em argumentos de respeitabilidade cultural (ah! o quadro de Courbet é inatacável porque até está exposto no Museu de Orsay, em Paris), algumas pessoas vieram formular o problema com a justeza que ele merece (Vasco Pulido Valente, Pedro Mexia, Alexandra Lucas Coelho).

Eu apenas acrescentaria outra ideia. Sendo a pintura a arte da eternidade (na medida em que não precisa de performance como o teatro-encenação, a música-execução, o cinema-projecção, a literatura-esforço de leitura), é talvez insuportável para nós que um quadro nos imponha para sempre uma imagem de animalidade (uso esta palavra sem qualquer sentido pejorativo).

A verdade é que quase ninguém aguentaria passar toda a vida a ingerir papas de sarrabulho, ou profiteroles com gelado, ou batatas fritas com sabor a bacon (o nojo é propositado). Ou seja, a nossa sensualidade (quando suficientemente rica) precisa de uma variedade de intensidades e requintes que acompanhe a própria variedade de estados psíquicos a que o quotidiano nos leva. As famosas erecções de Sting (quantas horas eram?) são mais motivo de anedota que de inveja. O sucesso das indústrias do vestuário e do calçado, a erotização dos automóveis, o close up explorado pelo cinema, tudo isso mostra que a sensualidade se quer tão literal quanto figurada (por metonímia, metáfora, ornamentação, sublimação, etc.). Talvez me possam acusar de recalcamento por via de educação católica... Não sei, não me quero estudar a mim mesmo (o meu Freud é pintor). Ou me digam que, numa sociedade alternativa, seríamos todos alegres naturistas. Mas desconfio de tais fundamentalismos. Por muito que eu, como toda a gente, perca a compostura perante genitais, não quereria passar a minha vida inteira nesse ponto específico da vida sexual. O sexo é, aliás, uma das modalidades da transitoriedade. E mesmo que ele tenha de estar omnipresente em todos os momentos do quotidiano, só pode assegurar essa eternidade por via de uma constante metamorfose de si mesmo. Nem tudo é recalcamento, sr. Sigmund: há também a pura e simples vivência do tempo (o meu filósofo é Heraclito).

Como aguentar então a eternidade de uma vagina frontal? Lacan mantinha o quadro escondido. Parece que Courbet atingiu mesmo um dos limites da pintura.

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