terça-feira, março 03, 2009

Retalhos da vida de um jovem 4

Confesso que não frequento o Fantasporto.

A razão é simples: detesto filmes de terror (e seus géneros próximos). Só mesmo um talento como o de Cronenberg me consegue sentar numa cadeira (de forças) para ver as carnavaladas de que toda essa mitologia se compõe.

Ainda por cima, o meu historial de frequência do certame não é famoso. Apanhei lá uma gripe de caixão à cova, fui ver o "Frankenstein" de James Whale mas não vi (nem eu nem ninguém) metade do filme não sei por que mistério de projecção, e assisti ao único Werner Schroeter de que alguma vez gostei (this is also bad news).

O ponto alto da minha relação com o Fantasporto deu-se quando fui acompanhar a projecção da média metragem "Jaime", de António Reis (penso que este filme ainda não é co-assinado pela sua mulher). Um par de cândidas e incautas professoras primárias resolveram levar a sua turma de crianças à mesma sessão. Presumo que estavam à espera de algo entre a "Mary Poppins" e o "Batman" (o Harry Potter ainda estava no cu dos franceses... estou a falar de cinema). Olhem só o que lhes caiu na rifa: um deslumbrante documentário-poema sobre um louco rural com laivos de genialidade pictórica...

Claro, as crianças javardaram qualquer hipótese de missa cinéfila que ali estivesse prometida. Uma barulheira infernal, comentários entre o irreverente e o apalermado, gargalhadas sem motivo: o pintor teria gostado. O meu momento preferido (e uma das mais deliciosas recordações que tenho da juventude cinéfila) deu-se quando, no filme, uma voz de mulher aldeã começa a chamar várias vezes pelo Jaime. Perante tão tentadora guloseima, a miudagem decidiu representar o papel do eco. De cada vez que a senhora gritava o nome do louco, ouvia-se em seguida um coro de crianças esganiçadas a guinchar: "Jaime! Jaime! Jaime!". Não sei mesmo se o Jaime não terá ouvido.

Depois da projecção, houve uma cena de terror (Fantas oblige), quando Margarida Cordeiro resolveu explicar às crianças que o filme era muito importante porque os quadros daquele maluquinho valiam muito dinheiro. Mas já não havia hipótese: "Jaime" tornou-se, até hoje, um dos meus filmes portugueses favoritos. Até à comoção.

1 comentário:

Miguel Drummond de Castro disse...

Dava um outro filme o (excelente) relato do "Jaime" a ser visto por engano pelos monstrinhos.


Abraço,

Miguel