terça-feira, março 17, 2009

Os erros de rodagem

Vi, recentemente, pela primeira vez, o filme "O último dos homens", um dos mais famosos títulos do realizador Friedrich Wilhelm Murnau.

Ainda não é altura de falar aqui sobre a obra.

No DVD através do qual pude tomar contacto com esse magnífico exemplo de cinema mudo, havia, como extra, um interessante documentário sobre a feitura do filme.

Nesse "making of" (diferido no tempo, claro), são apresentados alguns erros cometidos durante a fase da rodagem. Sempre achei que o passatempo daqueles que se divertem a perscrutar imperfeições de produção nos filmes, era coisa de nerds incapazes de se comoverem com o ecrã que lhes propõe. Mas isso não tem nada a ver com a importância deste documentário enquanto análise rigorosa e detalhada do processo fílmico.

Dois erros, em particular, chamaram a minha atenção. Numa sequência filmada com movimento de câmara, nota-se, no chão do cenário, as marcas do carro onde a câmara estivera pousada (depois de vários takes, o pisado tornara-se evidente). Ora, na medida em que essas marcas surgem numa rua urbana onde passam dezenas de carros, parece-me que não há aqui qualquer fricção (as marcas são semelhantes àquelas provocadas por pneus de automóvel).

Noutra sequência, em que o plano está dominado pelas grandes portas e paredes de vidro do hotel onde se passa boa parte da história, surgem, por vezes, os reflexos da equipa de rodagem (o director de fotografia e sua câmara, e muito mais gente) nesses vidros. Claro está que ninguém consegue reparar nisso durante o visionamento do filme. No documentário, é preciso atrasar ou parar a imagem, e até fazer alguns desenhos, para que essas marcas sobre ectoplasma possam ser notadas. Só que isto não me parece nada um erro (como as marcas de que falei no parágrafo anterior). Acho mesmo deslumbrante essa pista que o criador inadvertidamente deixou aos seus espectadores futuros, como se a película fosse um santo sudário capaz de guardar em si toda a matéria aparentemente destinada à ocultação.

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