domingo, março 01, 2009

O Jornal do Cabo 1

Concordo com aqueles que dizem que toda a gente se prostitui. Se não vendemos o sexo, vendemos contudo a nossa força de trabalho, as nossas ideias, a nossa imaginação, etc. Aliás, os moralistas conservadores, ao quererem defender o corpo da sua mercantilização ao mesmo tempo que concordam com a submissão do espírito aos mecanismos da economia, mergulham num paradoxo de tal modo trágico que nem Deus nem Alá sabem onde eles vão parar quando forem desta para diferente.

Deixo aqui bem claro: se alguma vez eu tivesse de recorrer à prostituição, sei que a minha capacidade de desejo seria sufocada por uma brutal melancolia. Não quero saber porquê (até porque não tenho dinheiro para psicanálise). Apenas me parece que espero demasiado das relações (sensuais e sentimentais) para conseguir aguentar tal evidência de derrota. No entanto, consumo pornografia. Eu, e não sei quantos milhões de humanos (e alguns ursos pandas, ao que parece).

O que eu não sou é uma senhora com o cabelo cheio de laca (porque é que elas têm sempre laca no cabelo?) a tentar salvar criaturas do pecado e da perdição. Não sou WASP (literal ou metafórico). Isso dá-me agilidade intelectual para aceitar que há gente diferente de mim. Acredito, acredito mesmo, que haverá pessoas (eventualmente mais livres do que eu) para quem a prostituição é uma forma de realização profissional como outra qualquer. E por isso defendo a sindicalização dos chamados trabalhadores do sexo, a legalização legislada da sua actividade, etc.

Quando o assunto vier à baila (ele tem espreitado, e o seu Momento há-de chegar), colocarei as minhas reservas meramente ao nível da noção do consentimento. Ou seja, ninguém duvida do crime que resulta do tráfico de seres humanos para efeitos de prostituição compulsória. Mas há que reflectir sobre a efectiva liberdade que existe em algumas das nossas manifestações conscientes de vontade. E essa reflexão, imensa, complexíssima, política, é que interessa. Será que a filha de um proxeneta tem de facto liberdade quando acede a tornar-se prostituta? Será que a mulher que começa a dar massagens porque tem mesmo de alimentar um ou dois filhos consentiu realmente nesse seu destino profissional? Até que ponto é que alguém é livre quando aceita deformar uma das dimensões mais profundas da sua vida para arranjar um lugar ao sol na sociedade capitalista (mas não teríamos de fazer igual reflexão acerca dos homens que condenamos a viverem toda a sua vida a apanhar o nosso lixo?)? Não estou a argumentar com má fé: continuo a dizer que acredito que uma pessoa pode ter uma relação completamente descomplexada com a prostituição. Alerto apenas para a delicadeza de todo o problema.

Mas isto faz parte de uma reflexão mais lata sobre o mundo em que vivemos. E eu sei que ninguém quer reflectir até ao fundo de nenhuma questão (deve ser por isso que se usa laca).


Nota: A rubrica do Jornal do Cabo, agora iniciada, trará para este blogue a discussão de assuntos que não estão na ordem do dia.

1 comentário:

miss red disse...

belissima argumentação. tenho as mesmas duvidas e medos.

http://oblogouavida.blogspot.com/2009/01/um-anjo-no-trapezio.html

abraço