quarta-feira, março 11, 2009

O INACTUAL 32

"Chronik der Anna Magdalena Bach" - Jean Marie Straub & Danièle Huillet (1968)


Os apontamentos narrativos desta abordagem à obra do compositor Johann Sebastian Bach não passam de momentos de total ausência de glória na sua biografia: invejas, traições, problemas de dinheiro, doenças, falecimentos de vários filhos, etc. Em torno do músico, gira uma humanidade que não sabe gerar mais do que a sua própria claustrofobia.

Ora, a estratégia formal que Straub e Huillet propõem na "Crónica de Anna Magdalena Bach" resulta de uma inquietação específica: a necessidade de inventar uma maneira de filmar que abrace a totalidade do humano, ou melhor dizendo, que revele a dificuldade de filmar a Humanidade sem cair na abstracção. É, portanto, um filme brilhantemente deformado: (ab)uso da lente grande-angular de modo a criar espaço suficiente para os corpos todos (o que é, claro está, um procedimento de ilusão, uma generosidade de olhar), a inclusão de todos os intervenientes das performances musicais num único enquadramento, o não-confronto com a câmara durante essas performances (ao contrário do que acontece nos concertos), a obliquidade insistente do ponto de vista, a invasão inesperada do pormenor arquitectónico na imagem (sublinhando os próprios constrangimentos criados pelo espaço inventado pela nossa espécie).

Acima de tudo, cada plano é dominado pela ausência de qualquer espaço que não esteja ocupado pelos corpos humanos. É, na verdade, uma Humanidade en plein cadre, claustrofóbica (como disse no primeiro parágrafo). Repare-se que no filme não há fora-de-campo, não há vazio revelador nem sensação de infinito. Straub e Huillet não partilham a ideologia de Bach, partilham, isso sim, o desejo (a convicção?) de superação da claustrofobia por via da plenitude imanente da música.

Neste filme-documento mais do que documentário (podemos usá-lo para estudar Bach), neste filme-concerto mais do que reconstituição, a imagem funciona como uma deformação negativa, centrípeta, a que a deformação positiva, centrífuga, da música vem oferecer sentido, esperança e projecto.

2 comentários:

paysanxxi disse...

bem bonito. e um acrescento importante para a análise do "método" straub-huillet ( que foi variando conforme o projecto, o que aliás dinamita o conceito de "autor" da nouvelle vague, de onde eles se demarcaram muito cedo ).
só tenho dúvidas na questão das grandes angulares ( mas isto é técnico ). e o conceito de deformação, eis algo em que nunca havia pensado...
well done

pedroludgero disse...

Pois, pois: isso das grandes angulares é pura inexperiência/burrice técnica da minha parte. Se por acaso tiveres a certeza de que não são usadas essas lentes, diz-me que eu reformulo o que pretendo dizer.

"Deformação" é uma palavra como outra qualquer. Straub-Huillet são o oposto de qualquer "realismo", mas a partir de certa altura, a pulsão da "realidade-íntegra" torna-se um dos aspectos mais determinantes do seu método. Ora, aqui tudo o que é filmado parece-me totalmente "deformado" pelas opções formais. Precisamente, a integridade está na música de Bach.

Abraço