terça-feira, março 03, 2009

O INACTUAL 31

"Circo!" - Rui Ribeiro (2004)


Neste belo documentário do paysanXXI, o autor propõe uma visão do circo diametralmente oposta àquela que foi cultivada por Federico Fellini: o "maior espectáculo do mundo" é humildemente filmado do ponto de vista dos bastidores. Este posicionamento perante o espectáculo de certo modo sugere que o visível (no cinema, na vida) não se encontra no domínio da performance, ou da acção, mas daquilo que as antecede (ou já agora, daquilo que delas restou, como será o caso do próximo projecto do realizador).

Não será tanto um posicionamento filosófico, mas essencialmente político. Pois o "Circo!" é também a alegoria de um Portugal, no dealbar do terceiro milénio, condenando as suas gentes a uma existência de bastidor. Como se depreende da citação televisiva, parece que a verdadeira vida é mesmo a Europa, na qual Portugal só entra esporadicamente para fazer um pequeno número sem continuidade nem consequência...

Se o problema que o documentário coloca é o de uma política da visibilidade (ou seja, o da recondução do cinema ao seu potencial analítico enquanto ponto de vista, contra toda a banalidade pseudo-realista e pseudo-neutra do jornalismo televisivo), é natural que o seu trabalho formal seja exigente e inventivo. "Circo!" é, a meu ver, um filme-pintura.

Seja a técnica das pinceladas muito rápidas (entre aguarela e action painting) que resulta da iluminação do espectáculo por trás da cortina, criando poderosos retratos, em relativo contraluz, dos membros de uma classe profissional (nos bastidores, claro). Seja a arte das pinceladas muito espessas (ralenti com efeitos artificiais de luz) com que são deformados os brevíssimos instantes em que o espectáculo é partilhado com o espectador: porque a vida, para ser verdadeira, tem talvez de ser sublimada (no sentido mais nobre da palavra).

O documentário é a arte da disponibilidade. Rui Ribeiro vive a sua criatividade com toda essa generosidade.

2 comentários:

Rogério Nuno Costa disse...

clap! clap! clap!

zito hioshimito disse...

pois que é verdade!