terça-feira, março 17, 2009

Nota Pirandello

Na peça "Esta noite improvisa-se" de Luigi Pirandello, definitivamente mais cativante sobre um palco do que encerrada numa leitura, o dramaturgo parece defender uma tese (nada científca) de fundamentação dos géneros de teatro (num sentido lato).

Toda a primeira (e extensa) parte da obra cria e defende o mito da improvisação. Claro que a maneira como essa improvisação (escrita palavra a palavra por Pirandello...) é exposta durante a representação depende muito das opções do encenador (e Jorge Silva Melo conseguiu por vezes criar, no espectador, a dúvida sobre que parte de todo aquele jogo pertenceria ao dramaturgo e que parte aos actores). Toda a acção narrada durante esta parte (e no fundo, a peça é um golpe de invenção e imaginação puras para contar uma aventura bem vulgar) se mistura com o peso sensual do presente: o sexo, o canto, o confronto, etc.

Já o epílogo, que aparentemente regressa a um teatro mais convencional, está todo ancorado no passado: o demoníaco marido aprisiona a sua sacrificada mulher porque tem ciúmes da vida que ela noutros tempos viveu. De repente, deixa de haver prazer lúdico, caos, gargalhadas ora cínicas ora leves, movimento, sangue, carrossel teatral, actores que entram e saem das personagens, humor, música, sexo, a loucura siciliana. Tudo se torna uma triste ópera para quem aprecia o sabor das lágrimas.

Não sei até que ponto Pirandello sabia que estava a preparar o futuro do teatro (nem quais eram as suas ambições a esse respeito). O que me parece é que ele quis trazer para esta arte toda uma vitalidade sem preconceitos nem castrações (devolver o teatro ao presente que constitui a sua essência). E conseguiu.


(Nota: a peça é sobre mais mil coisas. Isto é apenas um pormenor.)

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