terça-feira, março 03, 2009

Com título

Na última edição do Jornal de Letras, saiu um artigo muito interessante sobre o fenómeno dos títulos que os livros podem ter, e que os podem tornar célebres, muito vendáveis, excêntricos ou pura e simplesmente repelentes. Devo dizer que não vejo a questão (paratextual ou lá o que é) do título de nenhuma das maneiras que ali foram abordadas.

Por exemplo, adulterar o título pensado pelo autor do livro para o tornar apelativo para o seu público-alvo parece-me um disparate. Não só por causa da integridade (palavra tão grande, cruzes canhoto). Também por razões comerciais: o alvo de um bom livro deve ser todo o público (dizendo isto através de um trocadilho de muito mau gosto: o livro procura sempre um público-alva).

Para mim, o título funciona como a iluminação ou a banda sonora no cinema e no teatro. Ou seja, pela sua colocação e função, o título é qualitativamente distinto do corpo textual da obra a que se refere. É como se fosse outra arte, outra ontologia. E, por isso, assim como a luz altera o sentido e a comoção do jogo dos actores e seu discurso verbal, também o título, do seu posto privilegiado e diferenciado, banha todo o conteúdo do livro, dialoga com ele, muda-o, faz a sua condução, assombra-o, expande-o, restringe-o, salva-o ou lança-o no absurdo.

O título não é uma tabuleta mais ou menos espirituosa. E que tédio a história da música, com os seus infindáveis opus e números. E o que deu aos pintores para terem começado a assassinar as suas obras com "Composições" e vaguezas quejandas...

Por mim, tenho projectos de cujos títulos nunca abriria mão ("dar o dizer por Não dizer", "um pouco mais ou menos de serenidade", "Nem as abelhas sabem dizer mel"). Sobre outros teria todo o gosto de proceder a uma negociação com quem de direito ("nu abrir em nó", "história(s) da poesia"). E para evitar calculismos manhosos (não assumir um título com medo de que ele seja repelido pelos potenciais destinatários de uma obra), o melhor é investir na coisa, e tentar fazer sair um título que seja, simplesmente, muito bom: cumprirá a sua função.

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