quarta-feira, março 11, 2009

Breve estória da música

Franz Schubert foi, até agora, o maior poeta que a música teve. Mas isso é outro assunto.

Schubert foi alguém que não se levou demasiado a sério (não tenho dados biográficos para defender isto, apenas o conhecimento da obra). O mesmo não posso dizer de Beethoven (o génio!!!), que parece ter construído todo o seu percurso criativo em direcção a um futuro busto na imponente escadaria de um casarão alemão (provavelmente ao lado de Goethe). Nada a objectar à aventura inovadora do compositor de Bona. Fico apenas com a sensação (até porque já o interpretei: pobre de mim) que Beethoven elaborou de tal modo a sua persona mítica, que até o sofrimento da sua música (que ele explorou com masoquismo catártico) me parece parcialmente elaborado. É o sofrimento do verdadeiro artista.

Como nada disso existe na música de Schubert (mesmo que ele tivesse a mesma ambição do outro, seu definitivo modelo), o sofrimento que ela acaba por transmitir não tem mais onde se esconder a não ser na sinceridade. É música menor, menos perfeita e menos grandiosa, menos inflamada pela missão e pela ambição. Música onde nos podemos reconhecer.

Ou então não é nada disto. Serei eu que, quando sofro, sofro como Schubert e não como Beethoven (isto é uma estória). E eu aceito que me ensinem novas formas de alegria, mas não novas formas de dor.


Nota: aliás, a alegria só existe na música até Mozart (inclusive). Foram os renascentistas e os barrocos que a souberam encenar sem mácula, sem cinismo, de tal modo exaltante que já seria um caso de passado (de inactualidade) nas suas próprias épocas. É um exemplo banal: a famosa Badinerie para flauta solista e orquestra da Suite nº 2 em Si m BWV 1067, de Johann Sebastian Bach. Vindo de um compositor que mantinha negócios com Deus himself, poderá haver pedaço de música mais esfuziante, infância mais sobrevivente?

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