sábado, março 07, 2009

Anotação sobre uma cor



Quando eu era miúdo, li um texto num livro qualquer dos meus avós maternos, que nunca mais esqueci. Era a história de dois comerciantes de calçado que foram fazer prospecção de mercado a uma África primitiva. Quando lá chegaram e depararam com os nativos todos descalços, mandaram duas mensagens para a empresa. Uma dizia: "impossível fazer negócio aqui: toda a gente anda descalça". A outra propunha: "imensas oportunidades de negócio aqui: toda a gente anda descalça". A moralidade não precisa de ser explicitada.

O rosa é uma cor que traz consigo todo um conjunto de mitologias lastimáveis. As meninas são cor-de-rosadas desde a infância, para que a sua feminilidade seja fútil e mansa: tudo isso está quase morto, as mulheres sabem que a feminilidade é acima de tudo uma libertação erótica específica. Os homossexuais, condenados a uma cultura marginal que é preciso começar a parodiar, adoram o cor-de-rosa porque confundem feminilidade íntima com excentricidade superficial: tudo isso há-de morrer, mais homófobo menos homófobo, a homossexualidade há-de encontrar o seu justo lugar na sociedade. E depois, há toda a hedionda mística do rosa-choque, que se estende desde o Cláudio Ramos até ao mau estilismo: não, para isso não há redenção.

Francamente, o rosa sempre me pareceu uma cor ao mesmo tempo muito nobre e muito melancólica. Um fio de rosa sobre uma mancha negra é o suficiente para que o plástico se torne metafísico. O artista honesto é talvez aquele que pensa com oportunidade, desprezando o oportunismo do preconceito. Se toda a história do rosa é uma vergonha intelectual, o pintor que mudar por completo o seu sentido, definitivamente reinará.

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