quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Uma questão de gramática

Há uns tempos atrás, durante o visionamento em família de um concurso televisivo (talvez o "Quem quer ser milionário"...), perguntava-se ao concorrente qual era o plural da palavra "couve-flor". Houve apostas, cá em casa. Eu tinha, há muito pouco tempo, investigado uma gramática por causa de um texto qualquer que estava a escrever, e fiz o brilharete de ter sido o único a acertar que o dito plural era "couves-flores". Isto porque, explicou o Jorge -Gabriel-de-serviço, os dois termos da palavra hifenizada são nomes, o que obriga a que o plural se aplique a ambos (o mesmo já não acontece, por exemplo, em "guarda-chuva").

Mais tarde, apareceu a confirmação num daqueles inenarráveis programas de pedagogia da língua (eu acho-os muito interessantes, vejo-os por vezes, mas ainda não apanhei um que conseguisse apresentar um tom de comunicação que não fosse pura e simplesmente irritante). Todos os meus conhecidos estavam estupefactos (se é que alguém pode ficar estupefacto com tal assunto). Nunca, no seu quotidiano, eles se atreveriam a ir a um mercado pedir um quilo de couves-flores. Nem eles, nem eu, que me safei apenas por causa de uma leitura oportuna.

Para mim, este plural é mesmo muito estranho. Pela simples razão de que estes dois termos mantêm entre si uma relação de metaforização, sendo "couve" o elemento comparado, e "flor" o elemento comparante (terminologia deselegante e simplista, esta). Ou seja, uma couve-flor é uma couve que parece uma flor (ele há poéticas para tudo, e gente que talvez nunca tenha visto um jardim...). Ora quando lançamos mão do plural do simpático (e até saboroso) vegetal, não queremos dizer que comprámos um conjunto de couves e um conjunto de flores, mas sim que trouxemos para casa um conjunto de couves e que cada uma dessas couves se parece com uma flor. A flor é o conceito geral que dá sentido metafórico à formulação, não um objecto repetido o mesmo número de vezes das couves.

É claro que a Edite Estrela e o Diogo Infante nos virão dizer que a regra não é essa (mas quem inventa, ou melhor, quem fixa, e com que direitos, as regras da gramática?). Mas eu, enquanto escritor de poemas, sinto-me desconfortável com a ausência de rigor lírico de tal lei. Mas eu não interesso para nada. O falante comum nunca, mas nunca, perceberá por que tem de dizer "couves-flores", "sacos-camas", e etc.


(Imagem retirada daqui)

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