sábado, fevereiro 14, 2009

A selva pessoana

Conforme vou mergulhando e remergulhando na selva pessoana, vou-me afastando dos dois livros mais canónicos do grande autor modernista: "A mensagem" e "O livro do desassossego". São obras demasiado investidas por ideias, e as ideias de Fernando Pessoa interessam-me muito pouco.

No entanto, "O livro do desassossego" tem o mérito de ser provavelmente um dos maiores livros politicamente incorrectos que já se escreveu. Concordo com Rui Tavares, quando ele afirma que os arautos da incorrecção política usam essa vaidade apenas para fingir vitalidade num discurso opressor (onde geralmente se pretende diminuir os direitos ou as liberdades de outrem). No entanto, "O livro do desassossego" consegue, no meio de toda a chanfradice de Bernardo Soares, colocar em causa um grande número de certezas que normalmente aceitamos com preguiça. Saímos da sua leitura ora abalados, ora musculados nas nossas convicções.

Eu prefiro a poesia poesia de Pessoa. Os momentos em que a criatividade (sensual e emocional) amplifica, ambigua e desconstrói a eventual estreiteza de qualquer ideia a partir do qual um poema tenha sido construído. Há textos de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e do ortónimo himself que tenho a certeza de que me perseguirão toda a vida, como enigmas, águas límpidas ou clarões possuidores do condão da inesgotabilidade.

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