sábado, fevereiro 21, 2009

Rutilância Michelin

O conto "O artista da fome", de Franz Kafka, é provavelmente a parábola mais irreverente que já li.

É como se a literatura tivesse desde sempre esperado por esta história de um virtuoso do jejum, que vive os últimos dias de interesse público pela sua arte com o orgulho de todo o génio incompreendido e votado ao esquecimento.

Como já mencionei neste post, a parábola revela que a vaidade extrema do artista da fome acaba por ser uma cobertura para o facto de que o seu jejum na verdade resulta de ele nunca ter encontrado um alimento que o satisfizesse. Ou seja, de a vida não lhe ter sido servida com evidência gourmet. A sua criatividade, pura e dura, confunde-se, portanto, com a vontade de morrer. Há uma gravidade moral que, como sempre faz o jejum, redime o egoísmo.

À primeira vista, nada poderia furar mais a fome-enquanto-greve do que um prestígio criativo. Um artista da fome seria sempre imoral, na medida em que a falta de alimento é imposta a uma fatia monstruosamente grande da Humanidade que não tem direito a caprichos de talento. No entanto, que arte mais radical do que o jejum pode um artista encontrar? Uma arte em que as últimas consequências do seu tema (a não-sobrevivência do humano) são também os meios que tornam o fim injustificável.

Todos estes verdadeiros artistas que mutilam os seus corpos em vídeos que vão parar ao museu estão ao mesmo tempo profetizados e parodiados no pequeno conto de Kafka. Pois, por um lado, aqueles que confundem o simbólico com o político estão destinado a tornar-se atracções de circo (e o interesse do público circense nunca ultrapassa o desinteresse da moda passageira). E, por outro, todo o homem que a si mesmo se conhece (o que nunca acontece aos artistas da fome) sabe que a liberdade se encontra nas mandíbulas.

E agora, digo eu: o Homem veio juntar-se aos animais apenas para expandir o alcance destas mandíbulas por via da metáfora, do trabalho.

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