quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Oscar night

1. Se algum mérito tem o filme "Slumdog millionaire", é o de, sem querer, revelar o quanto o cinema de ollywood (com h, b, ou outra letra qualquer) está próximo da estética do concurso televisivo. Apenas uma constatação.

2. De resto, uma possível crítica ao filme (que não farei) deverá tomar dois aspectos em consideração: a pertinência ética do modelo do conto de fadas na abordagem de uma miséria social como a da Índia; o vigor que o filme traz a esse mesmo modelo (e que precisa de ser equiparado às obras de Jacques Demy, Ermanno Olmi, James Ivory, etc.).

3. Se é dúbia a bondade da atribuição de prémios a aspectos distintos dos filmes (como se, num concurso de poesia, pudéssemos dar notas separadas à prosódia, à imagética, ao rigor formal, etc.), nada é mais revelador do que a existência de Óscares para o Melhor Argumento (original ou adaptado). É como se fosse aceite a evidência de que o realizador é apenas uma espécie de ilustrador profissionalizado dos conteúdos de outrem, e não um autor (ninguém improvisa na indústria do cinema?, ninguém muda o argumento quando confrontado com a realidade dos actores e dos cenários?, ninguém altera de pernas para o ar a ideia inicial, funcionando esta como um espartilho criativo?). Ora, nem em Hollywood isso acontece assim (Samuel Fuller tornou-se realizador porque dizia que os seus argumentos eram adulterados pelos outros - mas Fuller era um autor). O Óscar de Melhor Argumento parece-me ser, portanto, uma maneira de institucionalizar a limitação de poder da figura do realizador.

4. Roman Polanski disse uma vez que, da sua ida à cerimónia dos Óscares, só tinha aproveitado uma posterior noite de sexo com uma determinada actriz. Claro que, ao cometer a inconfidêncida de revelar publicamente o nome da pessoa que com ele partilhou um bom bocado, o realizador mostrou o quanto era um macho desejoso de exibir troféus. Um boi, portanto. Mas há, na atitude sobranceira de Polanski, uma espécie de verdade profunda sobre o fascínio que essa cerimónia provoca (eu vi o espectáculo, não me considero melhor que ninguém). Não estou a interpretar essa atitude de forma literal, claro. Apenas a dizer que o que se passa no Kodak Theater tem mais a ver com a natureza imatura de toda a sensualidade (em sentido muito lato) do que com cinema.

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