sábado, fevereiro 07, 2009

O INACTUAL 30

"Othon" * - Jean-Marie Straub & Danièle Huillet (1970)


A distância (o sujeito-concreto a observar-se a si mesmo como sujeito-abstracto, o homem a criar-se Homem) é a principal condição para que haja partilha na criação artística. Esta magnífica adaptação de uma tragédia de Corneille traz algumas nuanças a tal ideia.

O filme pretende dar uma imagem da sua própria época. Mas a Roma do presente está relegada para o fundo remoto de cada plano (as ruas e os automóveis modernos, sempre ao longe). Ao perto, decorre a encenação de um texto exemplar que reflecte, em abstracto, sobre essa urbe concreta. No entanto, o texto (e o seu contexto) está muito mais longe (séculos de distância) da rodagem do que a Roma contemporânea que ruge no background visual (metros de distância). Dito de outro modo, o que afinal está perto da câmara é o tempo distante, e o que está longe é o lugar próximo. Isto cria um efeito de deformação óptica que funciona sobretudo como efeito ético. Pois a política é a arte de dignificar a contingência do espaço pela abrangência do tempo.

A tragédia não se define tanto pelos sucessivos crimes que a agudizam, mas pelo facto de, na teia de conflitos públicos e privados com que a vida se faz, o poder sair sempre vencedor perante a generosidade. Se o amor poderia, de facto, funcionar como o principal valor político, a verdade é que a sociedade nunca o reconhecerá como tal. Othon torna-se imperador, mas fica sozinho.

Straub e Huillet fazem, portanto, filmes sensuais, filmes de dádiva (como os romances da Llansol): as pedras, o vento, a luz, o canto dos pássaros, a água, o corpo dos intérpretes, a voz dos intérpretes, funcionam como pulsação do sentir (abertura) sobre qualquer veleidade de sentido (fechamento). A mensagem contestatária é uma verdade do(s) corpo(s), uma evidência livre de qualquer austeridade.

Em consequência (e eu quero lá saber de livros canónicos), este filme surge-me como um dos momentos de maior expressividade do trabalho dos actores que eu já vi em cinema. Basta o timbre da voz do intérprete que faz de imperador, e a personagem está dada (para quê meneios de corpo e caretas de expressão?). Basta a recitação amadora da figura do pai, a beleza italiana da princesa, a rigidez nobre de Othon, todos os actores, sublimados até ao essencial, libertam o texto com a mesma simplicidade violenta com que as árvores concedem os seus frutos ou a água recita o seu rumorejar.


* O verdadeiro título deste filme é "Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer, ou Peut'être qu'un jour Rome se permettra de choisir à son tour".

2 comentários:

paysanxxi disse...

cela s'appelle l'aurore!
magnífico, magnífico.
eles iam adorar ler isto.
merci...

pedroludgero disse...

Há só um problema: o "Othon" e o "Sicília" foram os únicos filmes deles que eu vi em grande ecrã. O resto tenho-o acompanhado em DVD. E não tenho a certeza de que o nível de expressividade dos actores seja de facto superlativo nesses dois filmes, ou se nos outros essa evidência não se impõe porque os vi num pequeno ecrã. A ver vamos.

De qualquer modo, "Othon" parece-me mesmo um filme especial. E cada vez gosto mais de Straub/Huillet.