domingo, fevereiro 15, 2009

O coleccionador 13

If there be nothing new, but that which is
Hath been before, how are our brains beguiled,
Which, labouring for invention, bear amiss
The second burden of a former child?
O that record could with a backward look
Even of five hundred courses of the sun
Show me your image in some antique book,
Since mind at first in character was done,
That I might see what the old world could say
To this composed wonder of your frame;
Whether we are mended, or whe'er better they,
Or whether revolution be the same.
.....O sure I am, the wits of former days
.....To subjects worse have given admiring praise.


William Shakespeare



Na língua inglesa, a palavra revolution tanto refere o movimento de um corpo em torno do seu eixo (rotação) como ao longo da sua órbita (translação). Parece-me que Shakespeare, neste soneto, está ao mesmo tempo a averiguar a vitalidade (frame of mind) de uma relação amorosa do sujeito poético que já duraria há cerca de quinhentos dias, e a interrogar-se sobre se a passagem do tempo em sentido lato (quinhentos anos) trará de facto algum progresso ao espírito humano. Assim sendo, o sentido político do texto (o outro sentido, bem conhecido, de revolution) deriva da tensão entre a capacidade de acção de cada indivíduo no curto espaço de tempo da sua vida e as grandes estruturas seculares que fornecem o contexto no qual ele age.

Abro aqui esta pequena hipótese polémica porque, nas duas versões portuguesas deste texto que conheço (de Vasco Graça Moura e de Carlos de Oliveira), não sinto que a ambiguidade do texto tenha sido cabalmente traduzida. Qualquer um daqueles poetas só deu atenção ao sentido da translação, porque o texto talvez assim o sugira (mas que dizer do anacronismo da referência a uma imprensa, compose a character, num mundo antigo em que ela ainda não estaria inventada?), descurando os factos de que courses of the sun costuma referir-se ao movimento do sol no céu ao longo de um dia, e de que nem todos os dicionários definem revolution como translação (pelo que será um significado mais raro).

Mas isto sou eu a tresler - hábito e vício que tenazmente acarinho.

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