sábado, fevereiro 07, 2009

O ACTUAL 24

"Hunger" - Steve McQueen


No conto "O artista da fome", Kafka revela que o jejum ambicioso do seu protagonista deriva, não tanto da vaidade usual que existe em todos os verdadeiros artistas, mas do facto de ele nunca ter encontrado um alimento que valesse a pena (ou seja, de não sentir prazer na vida tal como ela é). Assim sendo, o jejum não é um virtuosismo de circo, mas uma manifestação indirecta do desejo de morrer.

O que no filme de Steve McQueen se questiona é se uma greve de fome política, baseada exactamente nos mesmos pressupostos (inconscientes contudo para qualquer jejuador), é uma forma de suicídio ou de homicídio (estatal). É esse o sentido da longa cena de confronto entre Bobby Sands e o padre. O realizador (e artista plástico) não dá respostas: apesar de frontalmente adverso ao conservadorismo de Thatcher, à violência institucionalizada e ao passado imperialista da Inglaterra, o que ele filma em Bobby Sands não é a justeza da sua demanda mas o mistério da origem da energia que o acompanha. E por isso o filme nos comove.

Um filme nada convencional - por exemplo, antes da entrada em cena de Bobby Sands, há dois outros personagens que parecem ser os protagonistas da narrativa que se vai seguir (processo usado não só para sinalizar que esta é uma história colectiva, mas para mostrar, à maneira de Antonioni, a deriva intelectual que é necessária até que um paradigma seja achado).

Um filme profundamente expressivo - por exemplo, depois da grande conversa entre Bobby e o padre, o realizador insere um longo plano-sequência que regista o trabalho de um guarda prisional a limpar os dejectos dos detidos lançados para o corredor da prisão (enobrecimento do corpo e simétrico asco pela política), imediatamente seguido pela mistura do som de um discurso de Thatcher sobre a imagem desses dejectos. Por mero artifício da montagem, McQueen invade a emoção do espectador com toda a gravidade do seu assunto.

No fim, fica a pergunta: isto é mais Genet (celebração) ou Fassbinder (nojo)? Talvez a aprendizagem da liberdade seja assunto demasiado íntimo para o podermos tratar sem ambiguidade. Não é por acaso que Kafka termina o seu conto dizendo que os animais encontram a sua libertação... no prazer de comer.

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