quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Notas "Vicky Cristina Barcelona"

1. Alguns críticos estão dotados de excelentes reflexos. Por exemplo, logo que vêem uns bilhetes postais da cidade de Barcelona, consideram que o filme onde eles se inserem é, ele também, um bilhete postal.

Woody Allen já não é o que era, todos o sabemos. Em parte, isso deve-se ao facto de, a partir de certa altura, ele ter decidido (vá lá saber-se porquê) dotar de clichés a superfície de todos seu filmes. No entanto, alguém me fez notar uma vez, e com razão, que "Bullets over Broadway", no interstício dos lugares comuns, afirmava, ao arrepio de toda a sua contemporaneidade, que já não havia ninguém capaz de morrer ou de matar pela sua obra artística. E fazia-o com tristeza. Mesmo uma fita desajeitada como "Hollywood ending", geralmente considerado um dos piores Woody Allens de sempre, colocava em causa, e com uma certa graça, a possibilidade de evolução estética do cinema industrializado.

Tudo isto para dizer que "Vicky Cristina Barcelona" não é propriamente um filme sobre as possibilidades mais profundas da viagem, e por isso não precisa de se armar em Bruce Chatwin da celulóide. E será que nenhum dos rigorosos críticos foi uma criança burguesa, felicíssima por tirar fotos da Torre Eiffel na primeira vez que foi a Paris? Ou seja, o filme de Allen regista a preguiça intelectual dos turistas convencionais (e a mera função de suspensão que uma viagem pode ter), mas não é esse o objecto do seu discurso. Não estou com isto a afirmar que gostei muito do filme. Estou a dizer que a sua fragilidade não reside na meia-dúzia de planos com as instituições do sightseeing de Barcelona.



2. Tenho a certeza de que Woody Allen inventou o ménage à trois da sua história para poder filmar duas actrizes belas em cenas de algum lesbianismo. Fantasias de velho lúbrico, claro. Mas podem ter a certeza de que o sonho de ser realizador de cinema também se faz dessas coisas.



3. Alguém diz ao Woody Allen (e ao Howard Hawks, mas esse já morreu...) que, para ser auteur, não precisa de estar sempre a repetir os seu tiques mais superficiais.? Quando a personagem de Patricia Clarkson diz, vai o filme já adiantado, que contou não sei quê ao seu psicanalista, é inevitável que a irritação se apodere do cinéfilo. O artista é um bom artista, não havia necessidade...

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