terça-feira, fevereiro 17, 2009

Notas sobre a certeza

Vi ontem parte do debate "Prós e contras" sobre a possibilidade da figura jurídica do casamento civil poder ser estendida aos casais de pessoas do mesmo sexo. Deixo aqui meia dúzia de notas apressadas sobre o assunto:

1. Lamento, mas não aceito nenhuma opinião, muito menos uma intervenção, da Igreja Católica em assuntos de sexualidade. Trata-se de uma instituição que, para se manter fiel a uma ideologia, continua a demonizar o uso do preservativo, sabendo nós que, se alguém de facto respeitasse tal demonização, os resultados ao nível da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis seriam catastróficos. A figura mítica de Jesus Cristo é a de alguém que, apesar de aceitar uma determinada estrutura cultural religiosa (o rigor cruel do Velho Testamento), a soube sempre contornar (ou melhor dizendo, desprezar) quando a sua aplicação simplista poderia trazer sofrimento a um qualquer indivíduo. Mas Jesus Cristo, claro está, não era uma instituição.

2. Todo o conceito, para sobreviver à passagem do tempo, tem de ser continuamente redefinido (o trabalho que eu tenho tido para tentar reformular certas ideias-chaves da história da poesia para que elas não sejam pura e simplistamente dadas como extintas...). O casamento não é excepção. Além disso, na cultura humana, a natureza de qualquer realidade depende mais da evolução da história do que de uma essência atemporal.

3. A dada altura, um dos opositores ao chamado casamento gay, disse que o que ele e seus companheiros de opinião estavam a defender era a ideia de uma união duradoura que não se confundia com a mera enfatuação romântica passageira. Ninguém o disse, mas o que aí estava em causa era o preconceito profundo de que os homossexuais não conseguem constituir relações estáveis. Houve, de facto, um tempo em que os negros eram considerados geneticamente menos inteligentes do que os brancos (e esse tempo ainda encontra eco hoje em dia). A observação empírica parecia confirmar essa fatalidade, mas a única fatalidade que havia era o facto de toda uma raça ter sido excluída da educação durante séculos. Eis aí Obama para triunfar sobre a História. Os homossexuais foram também excluídos, e durante muito mais tempo, da afectividade socialmente dignificada, e por isso é natural que se tenham organizado em torno de uma contra-cultura marginal. E perante aqueles que, dando o devido desconto ao lesbianismo, acham que os homossexuais masculinos estão condenados a uma espécie de erotismo de coelho (porque só conhecem a dimensão mais folclórica do fenómeno), devo dizer que já todos aprendemos como a parte mais determinante das características do género é uma construção sócio-cultural, e aí está o sucesso intelectual e profissional das mulheres para triunfar sobre a História. Mesmo que, estatisticamente, viéssemos a verificar uma maior fragilidade das relações sentimentais entre homens (o que não é previsível nem impossível), isso não impediria que, em abstracto, a possibilidade legal do casamento não estivesse disponível. Por respeito pela dignidade pessoal. Afinal, todos conhecemos o deplorável estado em que se encontra a democracia portuguesa, e ninguém no seu perfeito juízo (apesar de Salazar já ser uma pop star) quererá regressar à ditadura.

4. Pronunciando-se contra a adopção de crianças por casais homossexuais, alguém evocou o sacrossanto nome de Freud. Pedimos que se citem nomes de estudiosos que estejam, pelo menos, vivos e a trabalhar.

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