terça-feira, fevereiro 17, 2009

Nota "Doubt"

A peça de John Patrick Shanley, ao que parece um clássico instantâneo do repertório teatral, seduz pelo facto de combinar um tema quente (a pedofilia no seio da Igreja Católica) com a sugestividade de um mistério policial. É uma espécie de whodunit sofisticado (ou melhor dizendo, de hedunit?), que levanta um problema ético bem pouco problemático (a ideia de inocente até prova em contrário é praticamente consensual na sociedade actual), que no filme é usado com o propósito de crítica à governação da Administração Bush (isso parece-me evidente, não será por acaso que a freira bondosa é uma professora de História que elogia aqueles que foram os bons presidentes dos Estados Unidos da América). Nunca os dilemas mais polémicos que estão latentes no drama (o limite do consentimento sexual na adolescência, a relação da Igreja com a homossexualidade, a impossibilidade do cumprimento do celibato pelos sacerdotes, etc.) são tratados. Como se a moral em torno do assunto fosse pacífica, e todo o mal do mundo resultasse das freiras más que o aterrorizam.

O dramaturgo, interessante (especialmente pela atenção dada aos pequenos pormenores documentais), assumiu o papel de realizador na adaptação do seu próprio texto ao cinema. O resultado é irrelevante. Shanley parece filmar como dizem os manuais de realização (ou como ensinam as escolas de cinema). Já nem me lembro de ver um filme assim tão académico. Até os planos inclinados surgem no momento em que é suposto surgirem... Assim sendo, aquilo que poderia ser cinematograficamente estimulante (a criação de uma dúvida no espectador por outras vias que não as da história e seus diálogos) é completamente desbaratado. Fica o trabalho dos actores. E a pena de que uma actriz como Meryl Streep tenha esgotado parte do seu génio em inanidades de Hollywood.

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