sábado, fevereiro 21, 2009

No escrínio 45

Poema de Rui Pedro Gonçalves:


"Ás vezes são fáceis as conversas,
São motins, caminhos dilatados que se constroem ao sabor da saliva
Num pranto seco.
Enquanto decorrem,
Um poço permanece secreto,
Ainda desconhecido em profundidade
Mas guardado no mais fundo do seu sentir.

Era assim a casa.
Os diálogos cruzavam gente desconhecida,
E talvez por isso fosse mais fácil efectuar a escalada
Descendo na vertical
Até que a água ressurgisse num frontão de espelho
Perto do caudal onde todas as romarias são, efectivamente, romarias.

Havia uma espécie de sentido
Na procura dos rios
Nos braços que haviam sido afluentes de encontros,
Ainda que em membros desconhecidos
A despirem-se na prontidão do lume, noutros trabalhos
Mais quentes.

A noite descia
E o poço iluminado à luz do gasómetro
Falava da brevidade de sermos nós
O motim de toda a construção.
Cada tijolo,
Cada grão de poeira caído no escuro
Imprimia o cunho de uma conversa
Num corredor vertical onde os lábios,
O brilho dos olhos,
Se entendiam em profundidade.

Resta-me dizer que o poço está protegido por telha
E, por coincidência, a televisão emite neste momento
Previsões sobre a ocorrência de uma próxima guerra
Onde os mortos jazem na horizontal, tão pouco profundos."



Os textos do segundo livro de Rui Pedro Gonçalves são diques. Na acepção multifacetada que o próprio autor lhes deu: os diques são protectores, separadores, criadores de permanência.

Alguns poemas parecem ter mesmo a ousadia, a generosidade, de nos tentarem proteger do grande mar além da morte ou da ideia de Deus. Ao mesmo tempo que insinuam um rumo, uma decência, que não se distingue do desejo de deleite (e como me reconheço em tal fragilidade ética).

Se eu conhecesse o poeta, dir-lhe-ia que o livro soube a pouco. E aconselhá-lo-ia a ir aumentando os seus "Diques", como Whitman fez com "Leaves of grass", para o projecto se expandir em todas as suas possibilidades de sentido e contágio. Não vale a pena ligar a ortodoxias de publicação - de vez em quando, o tamanho conta. E, além disso, é preciso um imenso dique na poesia actual.

O belo exemplar guardado no escrínio tem todas as qualidades oblíquas dessa maneira paradoxal de conversar em que os desconhecidos podem escalar até à profundidade mútua: a poesia. A verticalidade é a opção (de comoção e conduta) que verdadeiramente define um género.

Mas o que é mais profundo no texto? O entendimento nocturno daqueles que já passaram a essencial romaria do amor (uma espécie de sentido), ou a casual constatação de que, do desentendimento (a superficialidade da guerra), nenhum dique (casa, afecto, poema) nos protege?

1 comentário:

Rui P. Gonçalves disse...

Um abraço pelas suas palavras.