quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Conselho à Igreja Católica

Não se arrepie, leitor. Mas ao contrário daquilo que é suposto pensar-se hoje em dia, eu acho que nunca houve uma época tão apropriada para a realização do amor como esta que agora se inicia. À medida que no ocidente vão caindo os imperativos religiosos, os dogmas culturais, os mitos românticos, as castrações jurídicas, ou seja, à medida que o amor vai perdendo o seu prestígio e a sua normatividade, ele vai-se tornando uma possibilidade de escolha livre, arriscada, irreverente e consciente. Ou seja, duas pessoas encontram-se e dizem: tudo bem, o mundo é uma merda, não acreditamos no absolutismo de nenhuma emoção, as ilusões contam-se pelos dedos de uma mão decepada, não temos medo do fogo do Inferno, desconfiamos da maior parte dos intelectuais, e até nem gostamos de ouvir o Frank Sinatra, mas queremos estar juntos, e queremos fazer esse estar-juntos à medida da nossa fragilidade. É assim que nos sentimos bem. Parece que afinal havia um versito medieval que tinha razão no que dizia, e se a História e a Cultura que nos antecederam têm algum valor, ele não andará longe dessa invenção da cantiga d'amigo.

Por isso, dou um conselho à Igreja Católica: take it easy. À medida que o sacerdócio vai deixando de ser uma forma de ascensão social ou de ocultação da homossexualidade (quem vai à guerra, dá e leva), as vocações passarão a ter a marca d'água da verdade. Não era engraçado se todos os padres tivessem sido ordenados apenas pela sua fé genuína? Claro que a Igreja não aceitará nunca este conselho: as ditaduras, as teocracias, todas as manifestações de poder, têm medo de que a liberdade substitua o número pela verdade. Se calhar, até havia um versito de S. João da Cruz que tinha razão no que dizia, e quase ninguém o sabe ler.

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