quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Uma questão de gramática

Há uns tempos atrás, durante o visionamento em família de um concurso televisivo (talvez o "Quem quer ser milionário"...), perguntava-se ao concorrente qual era o plural da palavra "couve-flor". Houve apostas, cá em casa. Eu tinha, há muito pouco tempo, investigado uma gramática por causa de um texto qualquer que estava a escrever, e fiz o brilharete de ter sido o único a acertar que o dito plural era "couves-flores". Isto porque, explicou o Jorge -Gabriel-de-serviço, os dois termos da palavra hifenizada são nomes, o que obriga a que o plural se aplique a ambos (o mesmo já não acontece, por exemplo, em "guarda-chuva").

Mais tarde, apareceu a confirmação num daqueles inenarráveis programas de pedagogia da língua (eu acho-os muito interessantes, vejo-os por vezes, mas ainda não apanhei um que conseguisse apresentar um tom de comunicação que não fosse pura e simplesmente irritante). Todos os meus conhecidos estavam estupefactos (se é que alguém pode ficar estupefacto com tal assunto). Nunca, no seu quotidiano, eles se atreveriam a ir a um mercado pedir um quilo de couves-flores. Nem eles, nem eu, que me safei apenas por causa de uma leitura oportuna.

Para mim, este plural é mesmo muito estranho. Pela simples razão de que estes dois termos mantêm entre si uma relação de metaforização, sendo "couve" o elemento comparado, e "flor" o elemento comparante (terminologia deselegante e simplista, esta). Ou seja, uma couve-flor é uma couve que parece uma flor (ele há poéticas para tudo, e gente que talvez nunca tenha visto um jardim...). Ora quando lançamos mão do plural do simpático (e até saboroso) vegetal, não queremos dizer que comprámos um conjunto de couves e um conjunto de flores, mas sim que trouxemos para casa um conjunto de couves e que cada uma dessas couves se parece com uma flor. A flor é o conceito geral que dá sentido metafórico à formulação, não um objecto repetido o mesmo número de vezes das couves.

É claro que a Edite Estrela e o Diogo Infante nos virão dizer que a regra não é essa (mas quem inventa, ou melhor, quem fixa, e com que direitos, as regras da gramática?). Mas eu, enquanto escritor de poemas, sinto-me desconfortável com a ausência de rigor lírico de tal lei. Mas eu não interesso para nada. O falante comum nunca, mas nunca, perceberá por que tem de dizer "couves-flores", "sacos-camas", e etc.


(Imagem retirada daqui)

Oscar night

1. Se algum mérito tem o filme "Slumdog millionaire", é o de, sem querer, revelar o quanto o cinema de ollywood (com h, b, ou outra letra qualquer) está próximo da estética do concurso televisivo. Apenas uma constatação.

2. De resto, uma possível crítica ao filme (que não farei) deverá tomar dois aspectos em consideração: a pertinência ética do modelo do conto de fadas na abordagem de uma miséria social como a da Índia; o vigor que o filme traz a esse mesmo modelo (e que precisa de ser equiparado às obras de Jacques Demy, Ermanno Olmi, James Ivory, etc.).

3. Se é dúbia a bondade da atribuição de prémios a aspectos distintos dos filmes (como se, num concurso de poesia, pudéssemos dar notas separadas à prosódia, à imagética, ao rigor formal, etc.), nada é mais revelador do que a existência de Óscares para o Melhor Argumento (original ou adaptado). É como se fosse aceite a evidência de que o realizador é apenas uma espécie de ilustrador profissionalizado dos conteúdos de outrem, e não um autor (ninguém improvisa na indústria do cinema?, ninguém muda o argumento quando confrontado com a realidade dos actores e dos cenários?, ninguém altera de pernas para o ar a ideia inicial, funcionando esta como um espartilho criativo?). Ora, nem em Hollywood isso acontece assim (Samuel Fuller tornou-se realizador porque dizia que os seus argumentos eram adulterados pelos outros - mas Fuller era um autor). O Óscar de Melhor Argumento parece-me ser, portanto, uma maneira de institucionalizar a limitação de poder da figura do realizador.

4. Roman Polanski disse uma vez que, da sua ida à cerimónia dos Óscares, só tinha aproveitado uma posterior noite de sexo com uma determinada actriz. Claro que, ao cometer a inconfidêncida de revelar publicamente o nome da pessoa que com ele partilhou um bom bocado, o realizador mostrou o quanto era um macho desejoso de exibir troféus. Um boi, portanto. Mas há, na atitude sobranceira de Polanski, uma espécie de verdade profunda sobre o fascínio que essa cerimónia provoca (eu vi o espectáculo, não me considero melhor que ninguém). Não estou a interpretar essa atitude de forma literal, claro. Apenas a dizer que o que se passa no Kodak Theater tem mais a ver com a natureza imatura de toda a sensualidade (em sentido muito lato) do que com cinema.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

sábado, fevereiro 21, 2009

Partilha 47

andante


o moinho põe o ar entre aspas, como quem diz que "respirar é o pão nosso de cada dia". DOM QUIXOTE chega e diz - agiganta o ar em vento, pois o homem tem de rodar entre a mó de cima e a mó de baixo.
grão a grão com SANCHO aprende que a aventura se descobre mas se inventa a ventura. não perde o tino ao mundo quem assim anda à nora da literatura.



(O baú é mais vasto do que eu pensava)

Rutilância Michelin

O conto "O artista da fome", de Franz Kafka, é provavelmente a parábola mais irreverente que já li.

É como se a literatura tivesse desde sempre esperado por esta história de um virtuoso do jejum, que vive os últimos dias de interesse público pela sua arte com o orgulho de todo o génio incompreendido e votado ao esquecimento.

Como já mencionei neste post, a parábola revela que a vaidade extrema do artista da fome acaba por ser uma cobertura para o facto de que o seu jejum na verdade resulta de ele nunca ter encontrado um alimento que o satisfizesse. Ou seja, de a vida não lhe ter sido servida com evidência gourmet. A sua criatividade, pura e dura, confunde-se, portanto, com a vontade de morrer. Há uma gravidade moral que, como sempre faz o jejum, redime o egoísmo.

À primeira vista, nada poderia furar mais a fome-enquanto-greve do que um prestígio criativo. Um artista da fome seria sempre imoral, na medida em que a falta de alimento é imposta a uma fatia monstruosamente grande da Humanidade que não tem direito a caprichos de talento. No entanto, que arte mais radical do que o jejum pode um artista encontrar? Uma arte em que as últimas consequências do seu tema (a não-sobrevivência do humano) são também os meios que tornam o fim injustificável.

Todos estes verdadeiros artistas que mutilam os seus corpos em vídeos que vão parar ao museu estão ao mesmo tempo profetizados e parodiados no pequeno conto de Kafka. Pois, por um lado, aqueles que confundem o simbólico com o político estão destinado a tornar-se atracções de circo (e o interesse do público circense nunca ultrapassa o desinteresse da moda passageira). E, por outro, todo o homem que a si mesmo se conhece (o que nunca acontece aos artistas da fome) sabe que a liberdade se encontra nas mandíbulas.

E agora, digo eu: o Homem veio juntar-se aos animais apenas para expandir o alcance destas mandíbulas por via da metáfora, do trabalho.

No escrínio 45

Poema de Rui Pedro Gonçalves:


"Ás vezes são fáceis as conversas,
São motins, caminhos dilatados que se constroem ao sabor da saliva
Num pranto seco.
Enquanto decorrem,
Um poço permanece secreto,
Ainda desconhecido em profundidade
Mas guardado no mais fundo do seu sentir.

Era assim a casa.
Os diálogos cruzavam gente desconhecida,
E talvez por isso fosse mais fácil efectuar a escalada
Descendo na vertical
Até que a água ressurgisse num frontão de espelho
Perto do caudal onde todas as romarias são, efectivamente, romarias.

Havia uma espécie de sentido
Na procura dos rios
Nos braços que haviam sido afluentes de encontros,
Ainda que em membros desconhecidos
A despirem-se na prontidão do lume, noutros trabalhos
Mais quentes.

A noite descia
E o poço iluminado à luz do gasómetro
Falava da brevidade de sermos nós
O motim de toda a construção.
Cada tijolo,
Cada grão de poeira caído no escuro
Imprimia o cunho de uma conversa
Num corredor vertical onde os lábios,
O brilho dos olhos,
Se entendiam em profundidade.

Resta-me dizer que o poço está protegido por telha
E, por coincidência, a televisão emite neste momento
Previsões sobre a ocorrência de uma próxima guerra
Onde os mortos jazem na horizontal, tão pouco profundos."



Os textos do segundo livro de Rui Pedro Gonçalves são diques. Na acepção multifacetada que o próprio autor lhes deu: os diques são protectores, separadores, criadores de permanência.

Alguns poemas parecem ter mesmo a ousadia, a generosidade, de nos tentarem proteger do grande mar além da morte ou da ideia de Deus. Ao mesmo tempo que insinuam um rumo, uma decência, que não se distingue do desejo de deleite (e como me reconheço em tal fragilidade ética).

Se eu conhecesse o poeta, dir-lhe-ia que o livro soube a pouco. E aconselhá-lo-ia a ir aumentando os seus "Diques", como Whitman fez com "Leaves of grass", para o projecto se expandir em todas as suas possibilidades de sentido e contágio. Não vale a pena ligar a ortodoxias de publicação - de vez em quando, o tamanho conta. E, além disso, é preciso um imenso dique na poesia actual.

O belo exemplar guardado no escrínio tem todas as qualidades oblíquas dessa maneira paradoxal de conversar em que os desconhecidos podem escalar até à profundidade mútua: a poesia. A verticalidade é a opção (de comoção e conduta) que verdadeiramente define um género.

Mas o que é mais profundo no texto? O entendimento nocturno daqueles que já passaram a essencial romaria do amor (uma espécie de sentido), ou a casual constatação de que, do desentendimento (a superficialidade da guerra), nenhum dique (casa, afecto, poema) nos protege?

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Ring ring

Estava eu ainda a ressuscitar de uma longa noite de sono em crise, quando o meu telemóvel me pôs a par da evolução da economia contemporânea em direcção a uma maior responsabilização do seu funcionamento.

O novo gerente da minha dependência bancária, inspirado pelo facto de eu ser um cumpridor bem comportado das obrigações resultantes do chorudo crédito com que estou preso à sua instituição (situação que faz de mim um gajo honesto sem cheta), veio-me propor um novo creditozinho, talvez para uma viatura. Eu gostava de lhe ter dito que, se fizesse um novo crédito, eu passaria certamente a fazer parte do rol de incumpridores cujo comportamento não se recomenda. Ou então, tornar-me-ia um gajo honesto com sérios problemas alimentares.

Mas estava demasiado estremunhado. Depois de delicadamente negar o delírio do jovem, virei-me para o lado com o objectivo de consolidar o sono. Ao pesadelo o que é do pesadelo.

Notas sobre a certeza

Vi ontem parte do debate "Prós e contras" sobre a possibilidade da figura jurídica do casamento civil poder ser estendida aos casais de pessoas do mesmo sexo. Deixo aqui meia dúzia de notas apressadas sobre o assunto:

1. Lamento, mas não aceito nenhuma opinião, muito menos uma intervenção, da Igreja Católica em assuntos de sexualidade. Trata-se de uma instituição que, para se manter fiel a uma ideologia, continua a demonizar o uso do preservativo, sabendo nós que, se alguém de facto respeitasse tal demonização, os resultados ao nível da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis seriam catastróficos. A figura mítica de Jesus Cristo é a de alguém que, apesar de aceitar uma determinada estrutura cultural religiosa (o rigor cruel do Velho Testamento), a soube sempre contornar (ou melhor dizendo, desprezar) quando a sua aplicação simplista poderia trazer sofrimento a um qualquer indivíduo. Mas Jesus Cristo, claro está, não era uma instituição.

2. Todo o conceito, para sobreviver à passagem do tempo, tem de ser continuamente redefinido (o trabalho que eu tenho tido para tentar reformular certas ideias-chaves da história da poesia para que elas não sejam pura e simplistamente dadas como extintas...). O casamento não é excepção. Além disso, na cultura humana, a natureza de qualquer realidade depende mais da evolução da história do que de uma essência atemporal.

3. A dada altura, um dos opositores ao chamado casamento gay, disse que o que ele e seus companheiros de opinião estavam a defender era a ideia de uma união duradoura que não se confundia com a mera enfatuação romântica passageira. Ninguém o disse, mas o que aí estava em causa era o preconceito profundo de que os homossexuais não conseguem constituir relações estáveis. Houve, de facto, um tempo em que os negros eram considerados geneticamente menos inteligentes do que os brancos (e esse tempo ainda encontra eco hoje em dia). A observação empírica parecia confirmar essa fatalidade, mas a única fatalidade que havia era o facto de toda uma raça ter sido excluída da educação durante séculos. Eis aí Obama para triunfar sobre a História. Os homossexuais foram também excluídos, e durante muito mais tempo, da afectividade socialmente dignificada, e por isso é natural que se tenham organizado em torno de uma contra-cultura marginal. E perante aqueles que, dando o devido desconto ao lesbianismo, acham que os homossexuais masculinos estão condenados a uma espécie de erotismo de coelho (porque só conhecem a dimensão mais folclórica do fenómeno), devo dizer que já todos aprendemos como a parte mais determinante das características do género é uma construção sócio-cultural, e aí está o sucesso intelectual e profissional das mulheres para triunfar sobre a História. Mesmo que, estatisticamente, viéssemos a verificar uma maior fragilidade das relações sentimentais entre homens (o que não é previsível nem impossível), isso não impediria que, em abstracto, a possibilidade legal do casamento não estivesse disponível. Por respeito pela dignidade pessoal. Afinal, todos conhecemos o deplorável estado em que se encontra a democracia portuguesa, e ninguém no seu perfeito juízo (apesar de Salazar já ser uma pop star) quererá regressar à ditadura.

4. Pronunciando-se contra a adopção de crianças por casais homossexuais, alguém evocou o sacrossanto nome de Freud. Pedimos que se citem nomes de estudiosos que estejam, pelo menos, vivos e a trabalhar.

Nota "Doubt"

A peça de John Patrick Shanley, ao que parece um clássico instantâneo do repertório teatral, seduz pelo facto de combinar um tema quente (a pedofilia no seio da Igreja Católica) com a sugestividade de um mistério policial. É uma espécie de whodunit sofisticado (ou melhor dizendo, de hedunit?), que levanta um problema ético bem pouco problemático (a ideia de inocente até prova em contrário é praticamente consensual na sociedade actual), que no filme é usado com o propósito de crítica à governação da Administração Bush (isso parece-me evidente, não será por acaso que a freira bondosa é uma professora de História que elogia aqueles que foram os bons presidentes dos Estados Unidos da América). Nunca os dilemas mais polémicos que estão latentes no drama (o limite do consentimento sexual na adolescência, a relação da Igreja com a homossexualidade, a impossibilidade do cumprimento do celibato pelos sacerdotes, etc.) são tratados. Como se a moral em torno do assunto fosse pacífica, e todo o mal do mundo resultasse das freiras más que o aterrorizam.

O dramaturgo, interessante (especialmente pela atenção dada aos pequenos pormenores documentais), assumiu o papel de realizador na adaptação do seu próprio texto ao cinema. O resultado é irrelevante. Shanley parece filmar como dizem os manuais de realização (ou como ensinam as escolas de cinema). Já nem me lembro de ver um filme assim tão académico. Até os planos inclinados surgem no momento em que é suposto surgirem... Assim sendo, aquilo que poderia ser cinematograficamente estimulante (a criação de uma dúvida no espectador por outras vias que não as da história e seus diálogos) é completamente desbaratado. Fica o trabalho dos actores. E a pena de que uma actriz como Meryl Streep tenha esgotado parte do seu génio em inanidades de Hollywood.

domingo, fevereiro 15, 2009

O coleccionador 13

If there be nothing new, but that which is
Hath been before, how are our brains beguiled,
Which, labouring for invention, bear amiss
The second burden of a former child?
O that record could with a backward look
Even of five hundred courses of the sun
Show me your image in some antique book,
Since mind at first in character was done,
That I might see what the old world could say
To this composed wonder of your frame;
Whether we are mended, or whe'er better they,
Or whether revolution be the same.
.....O sure I am, the wits of former days
.....To subjects worse have given admiring praise.


William Shakespeare



Na língua inglesa, a palavra revolution tanto refere o movimento de um corpo em torno do seu eixo (rotação) como ao longo da sua órbita (translação). Parece-me que Shakespeare, neste soneto, está ao mesmo tempo a averiguar a vitalidade (frame of mind) de uma relação amorosa do sujeito poético que já duraria há cerca de quinhentos dias, e a interrogar-se sobre se a passagem do tempo em sentido lato (quinhentos anos) trará de facto algum progresso ao espírito humano. Assim sendo, o sentido político do texto (o outro sentido, bem conhecido, de revolution) deriva da tensão entre a capacidade de acção de cada indivíduo no curto espaço de tempo da sua vida e as grandes estruturas seculares que fornecem o contexto no qual ele age.

Abro aqui esta pequena hipótese polémica porque, nas duas versões portuguesas deste texto que conheço (de Vasco Graça Moura e de Carlos de Oliveira), não sinto que a ambiguidade do texto tenha sido cabalmente traduzida. Qualquer um daqueles poetas só deu atenção ao sentido da translação, porque o texto talvez assim o sugira (mas que dizer do anacronismo da referência a uma imprensa, compose a character, num mundo antigo em que ela ainda não estaria inventada?), descurando os factos de que courses of the sun costuma referir-se ao movimento do sol no céu ao longo de um dia, e de que nem todos os dicionários definem revolution como translação (pelo que será um significado mais raro).

Mas isto sou eu a tresler - hábito e vício que tenazmente acarinho.

sábado, fevereiro 14, 2009

A selva pessoana

Conforme vou mergulhando e remergulhando na selva pessoana, vou-me afastando dos dois livros mais canónicos do grande autor modernista: "A mensagem" e "O livro do desassossego". São obras demasiado investidas por ideias, e as ideias de Fernando Pessoa interessam-me muito pouco.

No entanto, "O livro do desassossego" tem o mérito de ser provavelmente um dos maiores livros politicamente incorrectos que já se escreveu. Concordo com Rui Tavares, quando ele afirma que os arautos da incorrecção política usam essa vaidade apenas para fingir vitalidade num discurso opressor (onde geralmente se pretende diminuir os direitos ou as liberdades de outrem). No entanto, "O livro do desassossego" consegue, no meio de toda a chanfradice de Bernardo Soares, colocar em causa um grande número de certezas que normalmente aceitamos com preguiça. Saímos da sua leitura ora abalados, ora musculados nas nossas convicções.

Eu prefiro a poesia poesia de Pessoa. Os momentos em que a criatividade (sensual e emocional) amplifica, ambigua e desconstrói a eventual estreiteza de qualquer ideia a partir do qual um poema tenha sido construído. Há textos de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e do ortónimo himself que tenho a certeza de que me perseguirão toda a vida, como enigmas, águas límpidas ou clarões possuidores do condão da inesgotabilidade.

Crítica da crítica da crítica da...

Gosto de uma boa discussão. Desde que me confrontem com argumentos exuberantes na sua racionalidade e devedores da independência de espírito do meu interlocutor. Não cultivo o insulto, a não ser como forma literária (que magnífico pode ser um poema-insulto).

Ao que parece, houve por aí uma agitação blogueira porque Luís Miguel Oliveira disse umas coisas desagradáveis sobre o filme "Slumdog millionaire" (que ainda não vi). Gasto este pedacinho do meu blogue para dizer que Luís Miguel Oliveira é o crítico que mais aprecio no jornal PÚBLICO, e é o único desse diário em quem confio quando estou indeciso entre ir ver ou não um filme. Por isso, nem sei se vou gastar um pedacinho do meu tempo com "Slumdog millionaire".

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Partilha 46

aldeia da roupa branca


das suas cordas vocais, faz os estendais onde seca a roupa das personagens, não vá alguma apanhar uma constipação na baba e ranho da emoção operática. MARIA está ligada por um fio a cada uma dessas suas crianças. é que ela sabe que não é a nudez, mas a mudez, o que define o ser com mancha.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Nota "Quei loro incontri"

"Não te perguntaste porque é que um instante, semelhante a tantos outros no passado, deve de repente fazer-te feliz, feliz como um deus? Tu fitavas a oliveira, a oliveira na vereda que percorreste todos os dias durante anos, até que chega o dia em que o mal-estar te deixa, e tu acaricias o velho tronco com o olhar, como se fosse quase o amigo reencontrado e te dissesse justamente a única palavra que o teu coração esperava. (...) Por um instante pára o tempo, e aquela coisa banal tu sente-la no coração como se o antes e o depois já não existissem. (...) Não podes pensar uma existência toda feita destes instantes?"

Cesare Pavese (tradução de José Colaço Barreiros)


Ao cuidado da Igreja Católica, do Partido Comunista, do senhor Kant, da história da poesia, da cinefilia, da adolescência, dos viajantes, da nostalgia da felicidade, etc.

Notas "Vicky Cristina Barcelona"

1. Alguns críticos estão dotados de excelentes reflexos. Por exemplo, logo que vêem uns bilhetes postais da cidade de Barcelona, consideram que o filme onde eles se inserem é, ele também, um bilhete postal.

Woody Allen já não é o que era, todos o sabemos. Em parte, isso deve-se ao facto de, a partir de certa altura, ele ter decidido (vá lá saber-se porquê) dotar de clichés a superfície de todos seu filmes. No entanto, alguém me fez notar uma vez, e com razão, que "Bullets over Broadway", no interstício dos lugares comuns, afirmava, ao arrepio de toda a sua contemporaneidade, que já não havia ninguém capaz de morrer ou de matar pela sua obra artística. E fazia-o com tristeza. Mesmo uma fita desajeitada como "Hollywood ending", geralmente considerado um dos piores Woody Allens de sempre, colocava em causa, e com uma certa graça, a possibilidade de evolução estética do cinema industrializado.

Tudo isto para dizer que "Vicky Cristina Barcelona" não é propriamente um filme sobre as possibilidades mais profundas da viagem, e por isso não precisa de se armar em Bruce Chatwin da celulóide. E será que nenhum dos rigorosos críticos foi uma criança burguesa, felicíssima por tirar fotos da Torre Eiffel na primeira vez que foi a Paris? Ou seja, o filme de Allen regista a preguiça intelectual dos turistas convencionais (e a mera função de suspensão que uma viagem pode ter), mas não é esse o objecto do seu discurso. Não estou com isto a afirmar que gostei muito do filme. Estou a dizer que a sua fragilidade não reside na meia-dúzia de planos com as instituições do sightseeing de Barcelona.



2. Tenho a certeza de que Woody Allen inventou o ménage à trois da sua história para poder filmar duas actrizes belas em cenas de algum lesbianismo. Fantasias de velho lúbrico, claro. Mas podem ter a certeza de que o sonho de ser realizador de cinema também se faz dessas coisas.



3. Alguém diz ao Woody Allen (e ao Howard Hawks, mas esse já morreu...) que, para ser auteur, não precisa de estar sempre a repetir os seu tiques mais superficiais.? Quando a personagem de Patricia Clarkson diz, vai o filme já adiantado, que contou não sei quê ao seu psicanalista, é inevitável que a irritação se apodere do cinéfilo. O artista é um bom artista, não havia necessidade...

Conselho à Igreja Católica

Não se arrepie, leitor. Mas ao contrário daquilo que é suposto pensar-se hoje em dia, eu acho que nunca houve uma época tão apropriada para a realização do amor como esta que agora se inicia. À medida que no ocidente vão caindo os imperativos religiosos, os dogmas culturais, os mitos românticos, as castrações jurídicas, ou seja, à medida que o amor vai perdendo o seu prestígio e a sua normatividade, ele vai-se tornando uma possibilidade de escolha livre, arriscada, irreverente e consciente. Ou seja, duas pessoas encontram-se e dizem: tudo bem, o mundo é uma merda, não acreditamos no absolutismo de nenhuma emoção, as ilusões contam-se pelos dedos de uma mão decepada, não temos medo do fogo do Inferno, desconfiamos da maior parte dos intelectuais, e até nem gostamos de ouvir o Frank Sinatra, mas queremos estar juntos, e queremos fazer esse estar-juntos à medida da nossa fragilidade. É assim que nos sentimos bem. Parece que afinal havia um versito medieval que tinha razão no que dizia, e se a História e a Cultura que nos antecederam têm algum valor, ele não andará longe dessa invenção da cantiga d'amigo.

Por isso, dou um conselho à Igreja Católica: take it easy. À medida que o sacerdócio vai deixando de ser uma forma de ascensão social ou de ocultação da homossexualidade (quem vai à guerra, dá e leva), as vocações passarão a ter a marca d'água da verdade. Não era engraçado se todos os padres tivessem sido ordenados apenas pela sua fé genuína? Claro que a Igreja não aceitará nunca este conselho: as ditaduras, as teocracias, todas as manifestações de poder, têm medo de que a liberdade substitua o número pela verdade. Se calhar, até havia um versito de S. João da Cruz que tinha razão no que dizia, e quase ninguém o sabe ler.

Mácula

Eu até acreditava na concepção inteligente, se os criacionistas não tivessem sido concebidos.

sábado, fevereiro 07, 2009

"Hunger" - imagem

O ACTUAL 24

"Hunger" - Steve McQueen


No conto "O artista da fome", Kafka revela que o jejum ambicioso do seu protagonista deriva, não tanto da vaidade usual que existe em todos os verdadeiros artistas, mas do facto de ele nunca ter encontrado um alimento que valesse a pena (ou seja, de não sentir prazer na vida tal como ela é). Assim sendo, o jejum não é um virtuosismo de circo, mas uma manifestação indirecta do desejo de morrer.

O que no filme de Steve McQueen se questiona é se uma greve de fome política, baseada exactamente nos mesmos pressupostos (inconscientes contudo para qualquer jejuador), é uma forma de suicídio ou de homicídio (estatal). É esse o sentido da longa cena de confronto entre Bobby Sands e o padre. O realizador (e artista plástico) não dá respostas: apesar de frontalmente adverso ao conservadorismo de Thatcher, à violência institucionalizada e ao passado imperialista da Inglaterra, o que ele filma em Bobby Sands não é a justeza da sua demanda mas o mistério da origem da energia que o acompanha. E por isso o filme nos comove.

Um filme nada convencional - por exemplo, antes da entrada em cena de Bobby Sands, há dois outros personagens que parecem ser os protagonistas da narrativa que se vai seguir (processo usado não só para sinalizar que esta é uma história colectiva, mas para mostrar, à maneira de Antonioni, a deriva intelectual que é necessária até que um paradigma seja achado).

Um filme profundamente expressivo - por exemplo, depois da grande conversa entre Bobby e o padre, o realizador insere um longo plano-sequência que regista o trabalho de um guarda prisional a limpar os dejectos dos detidos lançados para o corredor da prisão (enobrecimento do corpo e simétrico asco pela política), imediatamente seguido pela mistura do som de um discurso de Thatcher sobre a imagem desses dejectos. Por mero artifício da montagem, McQueen invade a emoção do espectador com toda a gravidade do seu assunto.

No fim, fica a pergunta: isto é mais Genet (celebração) ou Fassbinder (nojo)? Talvez a aprendizagem da liberdade seja assunto demasiado íntimo para o podermos tratar sem ambiguidade. Não é por acaso que Kafka termina o seu conto dizendo que os animais encontram a sua libertação... no prazer de comer.

"Othon" - imagem

O INACTUAL 30

"Othon" * - Jean-Marie Straub & Danièle Huillet (1970)


A distância (o sujeito-concreto a observar-se a si mesmo como sujeito-abstracto, o homem a criar-se Homem) é a principal condição para que haja partilha na criação artística. Esta magnífica adaptação de uma tragédia de Corneille traz algumas nuanças a tal ideia.

O filme pretende dar uma imagem da sua própria época. Mas a Roma do presente está relegada para o fundo remoto de cada plano (as ruas e os automóveis modernos, sempre ao longe). Ao perto, decorre a encenação de um texto exemplar que reflecte, em abstracto, sobre essa urbe concreta. No entanto, o texto (e o seu contexto) está muito mais longe (séculos de distância) da rodagem do que a Roma contemporânea que ruge no background visual (metros de distância). Dito de outro modo, o que afinal está perto da câmara é o tempo distante, e o que está longe é o lugar próximo. Isto cria um efeito de deformação óptica que funciona sobretudo como efeito ético. Pois a política é a arte de dignificar a contingência do espaço pela abrangência do tempo.

A tragédia não se define tanto pelos sucessivos crimes que a agudizam, mas pelo facto de, na teia de conflitos públicos e privados com que a vida se faz, o poder sair sempre vencedor perante a generosidade. Se o amor poderia, de facto, funcionar como o principal valor político, a verdade é que a sociedade nunca o reconhecerá como tal. Othon torna-se imperador, mas fica sozinho.

Straub e Huillet fazem, portanto, filmes sensuais, filmes de dádiva (como os romances da Llansol): as pedras, o vento, a luz, o canto dos pássaros, a água, o corpo dos intérpretes, a voz dos intérpretes, funcionam como pulsação do sentir (abertura) sobre qualquer veleidade de sentido (fechamento). A mensagem contestatária é uma verdade do(s) corpo(s), uma evidência livre de qualquer austeridade.

Em consequência (e eu quero lá saber de livros canónicos), este filme surge-me como um dos momentos de maior expressividade do trabalho dos actores que eu já vi em cinema. Basta o timbre da voz do intérprete que faz de imperador, e a personagem está dada (para quê meneios de corpo e caretas de expressão?). Basta a recitação amadora da figura do pai, a beleza italiana da princesa, a rigidez nobre de Othon, todos os actores, sublimados até ao essencial, libertam o texto com a mesma simplicidade violenta com que as árvores concedem os seus frutos ou a água recita o seu rumorejar.


* O verdadeiro título deste filme é "Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer, ou Peut'être qu'un jour Rome se permettra de choisir à son tour".

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Há tempo para a desilusão

Triunfante, o comentador António Vitorino anunciou que Barack Obama já conseguiu não cumprir uma das suas promessas eleitorais (a de um plano bipartidário para a resolução da crise económica). É natural que ele esteja feliz: vem de um partido traidor que, mesmo quando executa uma promessa, não a consegue cumprir.

No entanto, quer-me parecer que a dificuldade que Obama está a ter no seu projecto conciliador tem a ver com alguma má-fé por parte dos republicanos. Caso para dizer: vocês já lá estiveram, fizeram asneira, agora caluda.

Presumo que também não possamos atribuir a Obama a culpa das demissões de alguns membros da sua equipa com passados menos "clean". Obama não terá certamente o dom da omnisciência, e eu continuo a achar que ele é um homem de boa vontade. E de qualquer modo, o pessoal demitiu-se logo. Não estamos em presença de Fátimas Felgueiras.

No fundo, eu é que não confio em político nenhum. Mas aborrece-me ver esta gente reaccionária precocemente satisfeita com um falhanço que ainda não começou (e que lá há-de vir, pois assim é o mundo). E de qualquer modo, se estamos assim tão perto de bater no fundo como se diz, é melhor que haja um pouco de boa vontade de todas as partes.

Há tempo para a desilusão.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Dedicatória

Sou normalmente avesso a modas (parecem-me quase sempre o contrário das efectivas modernidades).

No entanto, dou-me por feliz quando as minhas preocupações de espírito vão de encontro à casualidade de uma ou outra berra. Sim, o presente é negro, mas negro também é o presidente dos E.U.A.; não tardará a coisa a pegar por esse ocidente fora. Energias renováveis, casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc., estou convosco.

O mesmo se passa com a música dita antiga. Presumo que nunca a música anterior a Mozart tenha tido tanto impacto sociológico ou tenha sido servida por intérpretes tão informados, rigorosos, virtuosos e expressivos. Estou nas minhas sete quintas: esta é a minha sonoridade de eleição.

Deixo aqui o vídeo de "Venus' Birds whose mournful tunes", canção do compositor inglês isabelino John Bennet, supremamente interpretada pelo contratenor Andreas Scholl. Ofereço-o aos meus três gentis seguidores (três já é uma multidão).

Johanna Sigurdardottir

Por que razão não ouço os comentadores da praxe dizerem: isto só poderia acontecer na Islândia, a América tem muito a aprender com esse grande país de contrastes que é a Islândia, a Islândia ainda continua a ser um farol para o resto da humanidade, isto é a História a fazer-se perante os nossos olhos...?

Não poderemos, aliás, acompanhar a cerimónia da tomada de posse da senhora Sigurdardottir em directo pela TV (gosto muito mais de dizer um nome complicado como Sigurdardottir do que um monossílabo facilmente pronunciável tipo... sei lá, Bush)? Os suplementos dos jornais não quererão fazer uma reportagem de muitas, muitas páginas sobre o assunto? Não há pins com o rosto da senhora (eu não uso, mas passava a usar)? Um rapzinho qualquer a bater no assunto?

Será que a Islândia não é sexy o suficiente (mas por que não sei eu o que se passa no Bangladesh, no Burkina Faso, no Butão)? Será o silêncio um sinal de indiferença aprovadora (estão a gozar com a minha cara)? Terão os homossexuais sofrido pouco ao longo da História? Ou será que a tolerância perante as orientações sexuais minoritárias está muito menos interiorizada do que o horror ao racismo?

Hipócritas: as vossas máscaras, por favor.

Projecto 2

Estou também a trabalhar num argumento para cinema intitulado "Madrigal".

Depois de reflectir um pouco sobre as razões que me levaram a esse título, concluí que o velho género musical me trazia as seguintes linhas de orientação:

1. A ideia de fazer um filme secular, sem qualquer intervenção do sagrado.

2. A vontade de fazer um filme falado, no qual a palavra tenha um protagonismo evidente (é a história de três irmãs: uma é poeta, outra actriz e diseuse, outra professora de português).

3. A oferenda da polifonia (de pontos de vista) ao cinema.

4. A tentativa de trazer, para o cinema, algo semelhante à técnica musical dos "madrigalismos" (por exemplo, uma descida cromática quando o poema musicado falava de "descer").

5. E, por fim, o interesse por compor cada segmento com uma forma que lhe é específica, e sempre nova, aquilo a que os ingleses chamam "through-composing" (recusando, por isso, qualquer tipo de estrutura estrófica repetitiva).


Espero recomeçar o trabalho neste projecto na próxima semana.

Projecto 1

Recentemente comecei a escrever um novo livro ao qual, com descaramento, dei o título: "história(s) da poesia" (a roubar, que seja coisa de jeito).

O livro será composto por 49 metamorfoses de poemas de outros autores, anteriormente existentes. A partir de um texto primitivo mudado para o português por Herberto Hélder, ou de um texto de um poeta da minha geração, ou de um capítulo da "Divina Comédia", etc., escreverei um novo poema que agirá sobre o seu modelo como um teatro de sombras, um telescópio, uma escavação arqueológica, um improviso de jazz, um exercício de alquimia, uma mudança de estação ou um restauro.

De momento, estou a trabalhar no capítulo "Opificio delle pietre dure". Esta bela expressão italiana refere-se a uma oficina de restauro de arte que existe verdadeiramente. Pegarei em sete sonetos (de Petrarca, Shakespeare, Mallarmé, Rilke, Camões, Sá de Miranda e Camilo Pessanha) e construirei novos textos a partir deles que, mais do que formalizarem o referido restauro, terão as seguintes funções: rescrita, crítica, tradução, leitura, interpretação, ensaio, historiografia, anotação, actualização, revitalização, encenação, personalização, jogo, graffiti, ditado (com erros), cópia desonesta, plágio, parasitismo, homenagem, negação dadaísta, edição, declamação, raio X, micro-heteronímia, quem-conta-um-conto-acrescenta-um-ponto... Tudo menos modernização: nenhum dos textos precisa disso.

Momento Woody Allen

Os dois aspectos mais engraçados das fobias são a invulgar variedade com que elas existem no mercado (do medo da cultura japonesa ao medo das boas notícias, ele há de tudo) e a estranheza dos nomes com que baptizaram essas doenças de estimação, às quais nos afeiçoamos como a um gato ou a um casaco velho que nos garante conforto como nenhum outro.

Eu, por exemplo, tomo conta de dois bichinhos chamados aracnofobia e acrofobia (repare-se na preguiça do meu subconsciente escrevedor, que quase redundava em anagrama): aranhas e alturas, portanto. E ponham fobia nisso: se me quiserem matar com um ataque cardíaco, recorram à primeira, se o objectivo for obrigar-me a um suicídio involuntário, façam o favor de me pôr a lavar vidros no Empire State Building.

Ora, há pessoas que se curam dos seus medos. Valentes... Mas eu não as percebo. E pergunto: que indivíduo minimamente inteligente pagaria para no futuro deixar de ser sensível ao horror que no presente lhe provocam, com intensidade e evidência, as suas sublimes fobias? Se eu não posso ver uma aranha de um centímetro quadrado mexer as patinhas sem me lembrar de um nazi, e se acarinho esse medo como um filho, se quero estar sempre em guarda contra o Eixo do Mal, protejer-me do Demo como quem vende a alma cara, por que carga de água havia de me lobotizar até me tornar um pateta alegre que não sente o fogo a queimar o seu próprio corpo?

Eu, abandonar o meu bobby e o meu tareco?... Não há-de ser o filho da minha mãe que se vai armar em carapau de corrida.

domingo, fevereiro 01, 2009

Partilha 45

o sobrevivente

publica a sua voz em la sirène. o sofrimento já lhe permite falar por iluminuras, com tudo o que estas revelam da condição de anfíbio. não chega. ao fim de algum tempo, apercebe-se de que não consegue conciliar o álbum de pratas com o ter pernas pr'a andar. dizem-lhe que, se ele fosse mulher, lhe bastaria o diapasão da vida. ele desconfia, e vira os búzios do avesso como se o mundo todo precisasse de sobreviver.



(Mais um texto resgatado a um projecto que naufragou)