sexta-feira, janeiro 30, 2009

O coleccionador 12

A sequência mais bem filmada que vi recentemente pertence a um filme de 1978: "Dalla nube alla resistenza" de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. É um pequeno trecho (uma curta-metragem num filme constituído por curtas-metragens) onde os autores encenam o texto "Os cegos", retirado do livro "Diálogos com Leucó" de Cesare Pavese.

O diálogo contrapõe a ausência de ilusões do velho Tirésias com a juventude de um Édipo ainda inconsciente do seu incesto e do seu parricídio. Na medida em que o adivinho é invisual e Édipo não tardará a vazar os seus próprios olhos, toda a imagem é composta sob o signo da cegueira.

Os dois homens, sentados numa carroça em movimento, são filmados de costas de modo a que nunca possamos contemplar os seus olhos. Como a câmara está colocada na própria carroça sem o cuidado de uma fixação profissional, a imagem, tremida e tosca, parece ter sido feita por um cego, por um mau cineasta. E cada mudança de plano é assinalada por uns brevíssimos instantes de negro que fazem lembrar piscares de olhos. Mais tarde, o ecrã negro reaparecerá diversas vezes, por períodos de tempo bem mais longos, a acusar o extravasar da pulsão de cegueira desde o imemorial Tirésias até à Itália do período pós-fascista.

No entanto, a cegueira do adivinho não é um defeito, nem mesmo uma agonia. Tirésias é cego porque sabe que "as coisas do mundo são rocha", sabe que os deuses são crianças ingénuas e que mesmo o sexo é "uma canseira em vão". Esta pétrea lucidez é aquilo que, em breve, um Édipo imaturo irá descobrir. No entanto, a cena está já composta sob o signo da rocha.

Pois as pedras, que a carroça pisa com desconforto e desequilíbrio artesanal, estão não só omnipresentes na banda sonora, como contaminam a própria visualidade (o tremer rude da câmara acima mencionado). O andar da carroça e o movimento da imagem são acima de tudo semânticos. O mau cineasta é afinal um cineasta que vê para além do convencional.

Caso único na encenação de vários "Diálogos com Leucó" que o filme apresenta, a cena mostra os dois conversadores reunidos no mesmo enquadramento: o seu confronto é ilusório (a cegueira comum é apenas uma questão de tempo). E quando Édipo e Tirésias se calam por fim, o ruído e a agitação da carroça, o movimento do trabalhador-escravo que no fundo do plano puxa o veículo, a natureza envolvente, os diversos elementos em campo acabam por produzir um demorado silêncio onde tudo parece estar a comunicar, a dialogar. Depois de as palavras certas serem ditas, o mundo torna-se eloquente.


(As minhas citações do texto de Pavese são baseadas na tradução de José Colaço Barreiros para a Assírio & Alvim)

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