quinta-feira, janeiro 08, 2009

Nota "La frontière de l'aube"

O mais recente filme de Philippe Garrel aplica a teoria do pára-brisas, que nele jocosamente se enuncia, à dimensão do tempo. Quando a actriz se aproxima demasiado do fotógrafo, ele afasta-se. Quando ela, por via radical da morte, se afasta, ele acaba por ter de galgar a última dimensão da cronologia para dela se aproximar.

A beleza do filme é que essa brecha de virtualidade já está prevista na incómoda luz branca que Garrel tem vindo a explorar com tenacidade solitária. Se alguma vez a ideia deleuziana de imagem-tempo encontrou plena justificação, ela está certamente nos filmes deste autor.

Garrel não está tão fora do seu tempo quanto pretendem os seus detractores. Ele sabe que filma um amor que, dado o seu teor mítico, pertence sempre ao passado (veja-se a subtileza do uso do efeito de íris). Aliás, para que os seus espectadores o entendam, ele vê-se obrigado a recorrer à literalidade - um amor louco torna-se loucura rigorosamente clínica, um fantasma do inconsciente torna-se um truque de filme fantástico.

Ora é aqui que o filme parece mais frágil. Falta-lhe a irrisão desesperada de objectos como "La mamain et la putain" ou "Amor de perdição" (versão de Oliveira). É como se, por causa de Garrel não querer assumir o negrume do seu humor, a componente lírica do seu trabalho saísse enfraquecida.

Mesmo passando por cima de questões ideológicas (para mim, o amor doméstico não é uma cobardia), este filme não me comove como, por exemplo, "J'entends plus la guitarre".

1 comentário:

paysanxxi disse...

bonito e justo. e se me permites o acrescento:

Cahiers du Cinema ( pergunta em jeito de Tartufo, como sempre ): Comment comprenez-vous le passage de Garrel, du cinéma pleinement expérimental des années 70 au cinéma pleinement commercial d'aujourd'hui?

Nicole Brenez: Philippe Garrel a toujours dit "je ne veux plus être seul, ceux qui m'aiment me comprendront". Alors j'essaie de comprendre, mais tout ce que je sais c'est que, s'il voulait bien montrer à nouveau le chef d'oeuvre absolu qu'est "Le Berceau de Cristal", la salle serait pleine et il serait tout seul, mais parce qu'il ne serait même plus resté un fauteil libre pour lui.

abraço