quarta-feira, janeiro 21, 2009

Nota "Elena et les hommes"

Jean Renoir filma Ingrid Bergman como se ela fosse a mulher mais bela do mundo. Não apenas por mera via da fotogenia, mas apostando na criação de uma personagem a cujo encanto ninguém pode ficar indiferente.

O mito da Guerra de Tróia é aqui usado como suporte de uma interrogação: qual é a relação justa entre os valores da vida íntima e aqueles que tutelam vida pública? Ou dito de outro modo: poderá a beleza de uma Helena qualquer desencadear uma catástrofe política (no caso deste enredo, uma ditadura)?

Por trás de um filme a cujo encanto ninguém pode ficar indiferente (burlesco experimental, fantasia musical, evocação pictórica, uma França de postal ilustrado), esconde-se uma conclusão lúcida. O amor e a política interpenetram-se, sim, mas de forma meramente simbólica, nunca com eficácia material. Pois falha o complô erótico para criar o desejo de poder no militar Rolland (o que só nos faz pressupor igual falhanço para as conspirações de paz). Em compensação, quando Elena beija o conde de Chevincourt no lugar simbólico onde deveria estar o político, ela reconhece a sua verdade sentimental; e o zé povo, ao ver o seu ídolo em exibição amorosa, sente um acréscimo de admiração cívica. Com muito terror, o fantasma do privado assombra o público, e vice-versa. Mas não se pode realizar uma política do amor.


(dedicado a Barack Obama, não a Bill Clinton)

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