quinta-feira, janeiro 08, 2009

Nota "Caos calmo"

A primeira ideia que me ocorre a propósito do filme de Antonio Grimaldi é a beleza do seu título (que é um mérito do livro de Sandro Veronesi que lhe está na origem, claro). Para além do uso justo da aliteração e da regularidade métrica, a formulação inquieta porque funciona, na aparência, como um oximoro, que facilmente se desmonta a partir de uma reflexão mais demorada. Afinal, o que impede que um caos seja calmo?

O mote para o filme está assim dado. Moretti faz aqui o seu pequeno Bergman. Não só porque organiza uma narrativa tradicional em torno de uma figura espacial (em "Morangos silvestres", a história adquiria o seu sentido ao longo de uma viagem, aqui todos os fragmentos rodam em torno de uma ausência de movimento), mas essencialmente na utilização da encenação dos sonhos como mecanismo de libertação das personagens. A (já famosa) cena de sexo escaldante, claramente um momento onírico, é uma espécie de vingança fantasmática que a personagem de Moretti comete contra o facto de ter estado a salvar a vida daquela mulher ao mesmo tempo que a sua própria companheira morria. A sequência é desagradável, claro. Mas eu pergunto-me se os críticos de cinema e os padres terão todos sonhos higiénicos e politicamente correctos...

No entanto, Nanni Moretti não tem o génio formal de Ingmar Bergman nem atinge o arrepio emocional a que por vezes Kieslowski, por graça, chegava (falo de cineastas que também abordaram a questão do luto). É um cineasta menor (sendo os seus filmes tanto maiores quanto menor for o seu projecto - "Querido diário", "Abril"). Ainda por cima não fica bem servido pelo realizador que alugou para ser dirigido - basta ver como as cenas da chegada dos pais à escola no fim do primeiro dia de aulas ou da perseguição do cão Névoa pelas crianças são filmadas tão mal e tão depressa que quase nem dá para perceber o que nelas está em jogo emocionalmente falando.

Fica é cada vez mais claro que este suposto clown político tem dentro de si uma dimensão agónica que não era assim tão previsível quanto isso. Chaplin era um sobrevivente, Buster Keaton um pensador, os irmãos Marx não tinham espessura psicológica, Tati refugiava-se na distracção e Woody Allen tem demasiados complexos intelectuais para cair na emoção. Mas Moretti é claramente um cómico sofredor.

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