sexta-feira, janeiro 30, 2009

Crónica da Presidência


Um dia, hei-de chegar a presidente da minha própria vida.

Dizem-me que é difícil, que isso só acontece quando a vida adquire demasiado faroeste. Mas eu não me fio: sou negro o suficiente para meter medo ao destino.

E já tenho alguns antecedentes. Uma vez, resolvi sentar-me naqueles lugares de poder e privilégio que, no autocarro da minha vida, estavam reservados aos outros. Disseram-me que não, que os cus têm de obedecer à lei, e que mesmo os olhos que vêem têm de evacuar a sua visão pelo enquadramento previsto pela sociedade. Eu não arredei nádega. Fui preso e tudo, mas a coisa deu mais barraca do que hilaridade.

Quando por fim for presidente da minha própria vida, vou rodear-me de Prémios Nobel da Educação Física que regenerem o meu corpo em crise. Vou comprar um cão-de-licor inglês, que eu gosto de lambidelas doces como as senhoras, e não perco uma oportunidade de insultar maníacos do ultimato. E vou fechar Guantanamera e outras músicas de raça.

Quando for presidente da minha própria vida, um pássaro vai fazer-me os discursos com que hei-de brilhar perante os outros. Serei famoso na áfrica-da-poesia. E terei o posto mais poderoso e invejado na terceira idade a contar do sol: a liberdade para desiludir.

Mas esperem... enganei-me na escrita. Bolas: estou possuído mas ainda não empossado. Tenho de voltar a escrever. E a escrever. E a escrever.

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