quarta-feira, janeiro 21, 2009

Auto-retrato enquanto leitor

Leio "Dormia tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando incerto, era uma bandeira sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser" (do Livro do desassossego).

E o que me comove não é a psicologia de Bernardo Soares (esse homem cuja lucidez a si mesmo impôs a alma experimental de um espectro). Nem a metafísica furiosa aqui latente (e que Pessoa nunca sistematizará, nem mesmo agora).

O que me move é o requinte de uma bandeira toda feita em vento: sou um terrível materialista, e gosto das matérias-primas mais raras e caras, mais puras e duras. O que me move é saber que tipo de erro é o universo: erro gramatical? erro de cálculo? de afinação? humano? Pode ser apagado? Posto entre parêntesis? O despertar é um corrector? O que me move é pensar que, se ainda houvesse serviço militar obrigatório, eu gostaria de o cumprir (sem ir) num quartel sem ser.

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